Evidências do canabidiol na epilepsia refratária pediátrica

O uso do canabidiol (CBD) no tratamento de epilepsias refratárias pediátricas avançou de forma consistente nos últimos anos. Hoje, estudos clínicos permitem compreender melhor sua eficácia, seus mecanismos de ação e seu perfil de segurança, especialmente em síndromes graves e de difícil controle. Ao mesmo tempo, a literatura ainda aponta lacunas que exigem investigação contínua.

Este texto apresenta uma síntese baseada no artigo científico “Cannabidiol for the treatment of refractory epilepsy in children”, publicado na Revista Paulista de Pediatria, que revisa criticamente as evidências disponíveis sobre eficácia, mecanismos de ação e segurança do CBD em síndromes epilépticas graves na infância.

O que sabemos hoje

Atualmente, a maior parte das evidências concentra-se em três síndromes específicas: Síndrome de Dravet, Síndrome de Lennox-Gastaut e complexo de esclerose tuberosa. Estudos publicados entre 2011 e 2021 demonstram que o CBD, quando utilizado como terapia adjuvante, reduz a frequência de crises e apresenta tolerabilidade geralmente favorável.

Além disso, ensaios clínicos randomizados forneceram dados mais robustos sobre eficácia e segurança. No entanto, diferenças entre doses e desenhos de estudo ainda dificultam comparações diretas. Por esse motivo, a padronização terapêutica continua sendo um desafio relevante.

Como o CBD atua na epilepsia refratária pediátrica

O canabidiol não age como um modulador único. Em vez disso, ele influencia diversos mecanismos que regulam a excitabilidade neuronal.

Nesse contexto, o CBD ajusta a atividade do Sistema Endocanabinoide e, simultaneamente, interfere em vias relacionadas à transmissão excitatória. Como resultado, ele reduz a liberação excessiva de glutamato, aumenta os níveis de adenosina extracelular e modula canais iônicos envolvidos na atividade elétrica cerebral. Dessa forma, o composto contribui para diminuir a hiperexcitabilidade que caracteriza as crises epilépticas.

Eficácia clínica para epilepsia refratária pediátrica

Nos estudos sobre Síndrome de Dravet, o uso de CBD como terapia adjuvante reduziu significativamente a frequência de crises convulsivas. Em protocolos que utilizaram doses de 20 mg/kg/dia, observou-se redução mediana relevante em comparação ao placebo, além de um pequeno grupo de pacientes que permaneceu livre de crises durante o período analisado.

  • Dose típica: 20 mg/kg/dia
  • Redução mediana ajustada: -22,8% vs placebo
  • Cerca de 5% dos pacientes ficaram livres de crises no período avaliado

De maneira semelhante, pacientes com Síndrome de Lennox-Gastaut apresentaram redução consistente de crises, especialmente nas crises de queda. Em geral, doses entre 10 e 20 mg/kg/dia demonstraram impacto clínico significativo.

  • Doses entre 10–20 mg/kg/dia
  • Redução de crises entre 37,2% e 41,9%
  • Impacto relevante em crises de queda

Por outro lado, estudos envolvendo o complexo de esclerose tuberosa também indicaram benefícios, ainda que frequentemente com doses mais elevadas. Nesses casos, cerca de um terço dos pacientes alcançou redução igual ou superior a 50% na frequência de crises.

  • Redução de crises entre 28,4% e 29,1%
  • Aproximadamente um terço dos pacientes com ≥50% de redução

Segurança e interações

De modo geral, o CBD apresenta perfil de segurança favorável quando o médico acompanha seu uso de perto. Ainda assim, alguns efeitos adversos surgem com frequência, como sonolência, redução do apetite e diarreia. Esses eventos costumam aparecer de forma transitória e, muitas vezes, melhoram após ajustes de dose. Eventos graves são raros.

Eventos adversos mais comuns:

  • Sonolência (13–41%)
  • Diminuição do apetite (9–56%)
  • Diarreia (10–23%)
  • Fadiga

Entretanto, o uso concomitante com outros antiepilépticos exige atenção. O CBD pode aumentar os níveis do clobazam, o que eleva o risco de sedação. Além disso, a associação com ácido valproico pode provocar alterações hepáticas. Portanto, o médico deve monitorar enzimas hepáticas e revisar periodicamente o esquema terapêutico.

Regulação e acesso

A aprovação do CBD farmacêutico marcou um avanço importante no manejo dessas síndromes. A FDA reconheceu sua indicação para Dravet e Lennox-Gastaut em 2018 e, posteriormente, ampliou seu uso para o complexo de esclerose tuberosa. Na Europa, a EMA seguiu caminho semelhante.

No Brasil, a Anvisa autoriza a importação mediante prescrição médica e autorização sanitária específica.

O que ainda precisa avançar para o tratamento de epilepsia refratária pediátrica

Apesar dos avanços, a literatura ainda carece de dados sobre segurança em longo prazo e impacto no desenvolvimento neuropsiquiátrico. Além disso, a evidência permanece restrita às síndromes mais graves, o que limita o uso rotineiro em epilepsias mais comuns.

Por isso, futuras pesquisas devem acompanhar pacientes por períodos mais extensos e avaliar desfechos funcionais, como cognição, comportamento e qualidade de vida. Esses estudos com seguimento prolongado serão essenciais para consolidar o papel do CBD.

Em síntese

O canabidiol já ocupa um espaço relevante como terapia adjuvante em síndromes epilépticas pediátricas específicas. Ainda assim, o médico deve orientar seu uso com base em indicação clara, monitoramento contínuo e avaliação cuidadosa de interações medicamentosas.

À medida que novos dados surgirem, o campo poderá avançar com maior segurança e previsibilidade.

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