Como os canabinoides estão sendo estudados nas doenças autoimunes da pele

À medida que a dermatologia avança na compreensão dos mecanismos que regulam inflamação, imunidade e homeostase cutânea, os canabinoides passaram a ocupar um espaço crescente no debate científico. Longe de modismos, esse interesse se sustenta na investigação do Sistema Endocanabinoide cutâneo, uma rede fisiológica envolvida em processos centrais da pele, como proliferação celular, função de barreira e respostas imunológicas.

Nesse contexto, o artigo de revisão sistemática “Cannabinoids for the treatment of autoimmune and inflammatory skin diseases”, publicado em 2024 na revista Experimental Dermatology, reúne e analisa criticamente décadas de pesquisas pré-clínicas e clínicas. O trabalho oferece um panorama atualizado sobre o uso de canabinoides no manejo de doenças autoimunes e inflamatórias da pele, destacando avanços relevantes, limitações metodológicas e os desafios que ainda precisam ser superados para a consolidação dessas abordagens na prática dermatológica.

O Sistema Endocanabinoide e sua importância para a saúde da pele

De acordo com a revisão publicada na Experimental Dermatology, o Sistema Endocanabinoide exerce papel central na fisiologia cutânea. Ele participa de processos como proliferação, diferenciação e apoptose de queratinócitos, além de modular respostas inflamatórias locais. Estes são aspectos diretamente envolvidos na fisiopatologia de diversas dermatoses autoimunes e inflamatórias.

Esse sistema é composto por três grandes elementos:

  • Canabinoides, incluindo:
    • Fitocanabinoides, como o Δ9-THC e o canabidiol (CBD), derivados da Cannabis sativa
    • Endocanabinoides produzidos pelo próprio organismo, como anandamida (AEA) e 2-araquidonoilglicerol (2-AG)
    • Canabinoides sintéticos e análogos farmacológicos
  • Receptores, principalmente:
    • CB1R, presente em células cutâneas e envolvido em sinais sensoriais e inflamatórios
    • CB2R, expresso sobretudo em células do sistema imune e relevante na modulação da inflamação
  • Enzimas, responsáveis pela síntese e degradação dos endocanabinoides, como NAPE-PLD, DAGLα/β, FAAH e MAGL.

Mais de 100 fitocanabinoides já foram identificados na Cannabis sativa, mas o CBD  e o Δ9-THC concentram a maior parte das investigações dermatológicas.

Como os canabinoides atuam nos processos inflamatórios cutâneos

Segundo os autores da revisão, o Sistema Endocanabinoide atua como uma rede reguladora da homeostase da pele, interferindo em múltiplos pontos da resposta inflamatória. Estudos celulares mostram que tanto o CBD quanto o Δ9-THC podem exercer efeitos anti-inflamatórios e antiproliferativos em queratinócitos.

Esses efeitos são mediados principalmente pelos receptores CB1R e CB2R, mas também envolvem outros alvos moleculares, como o TRPV1. A ativação dessas vias está associada à redução de citocinas pró-inflamatórias, ao controle da proliferação celular excessiva e à modulação da resposta imune local, que são mecanismos diretamente relacionados a doenças como psoríase, dermatite atópica, esclerose sistêmica e dermatomiosite.

Como destaca a autora Ai Kuzumi, citada na revisão, o Sistema Endocanabinoide representa uma rede complexa passível de modulação para restaurar a homeostase cutânea, embora essa abordagem ainda esteja em fase de consolidação científica.

Evidências clínicas em doenças autoimunes e inflamatórias da pele

A revisão sistemática analisou estudos clínicos envolvendo diferentes canabinoides e formulações em condições como esclerose sistêmica, dermatomiosite, psoríase e dermatite atópica.

Esclerose sistêmica e o papel do lenabasum

O composto mais estudado nesse contexto foi o lenabasum, um agonista seletivo do receptor CB2R. Em um ensaio de fase 2, pacientes tratados com lenabasum apresentaram melhora significativa no índice ACR CRISS, sem eventos adversos graves. Já no ensaio de fase 3, o desfecho primário não foi alcançado, possivelmente devido à melhora observada também no grupo placebo e ao uso concomitante de imunossupressores. Ainda assim, o perfil de segurança permaneceu favorável.

Relatos observacionais adicionais sugeriram redução de dor, melhora do sono e alívio de úlceras cutâneas com o uso de CBD oral e tópico, embora esses dados não permitam conclusões definitivas.

Dermatomiosite: melhora da atividade cutânea

Na dermatomiosite, o lenabasum demonstrou redução significativa da atividade cutânea medida pelo escore CDASI em estudos controlados. Em subgrupos específicos, doses de 20 mg duas vezes ao dia estiveram associadas a melhora sustentada ao longo de 52 semanas, com boa tolerabilidade.

Psoríase e dermatite atópica: foco no uso tópico

Em psoríase e dermatite atópica, os estudos avaliados foram majoritariamente pequenos, mas indicaram que formulações tópicas contendo CBD, N-PEA ou adelmidrol podem contribuir para redução do prurido, melhora da hidratação e diminuição da inflamação, com alta taxa de tolerabilidade. A via tópica se destaca por permitir a entrega local do ativo, minimizando efeitos sistêmicos.

Segurança, limites e necessidade de mais estudos

De forma geral, os canabinoides apresentaram perfil de segurança favorável, especialmente em formulações tópicas. Eventos adversos leves foram mais frequentes nas vias orais, incluindo tontura, fadiga e boca seca.

Ainda assim, os autores reforçam que os resultados devem ser interpretados com cautela. Como destaca Ayumi Yoshizaki, os dados atuais são promissores, mas exigem validação por meio de ensaios clínicos randomizados, de maior escala e com rigor metodológico.

O futuro dos canabinoides na dermatologia

A revisão aponta que o futuro da dermatologia pode incluir o uso mais estruturado de canabinoides e moléculas relacionadas, como VCE-004.8, ajulemic acid e N-PEA, especialmente como terapias adjuvantes. Avanços em tecnologias de liberação, como nanoemulsões e sistemas transdérmicos, podem ampliar a eficácia e a segurança dessas abordagens.

No entanto, desafios permanecem: padronização de formulações, definição de endpoints clínicos adequados, regulação clara e educação de profissionais de saúde. O potencial terapêutico existe, mas sua consolidação depende de ciência de qualidade, ética e acompanhamento rigoroso.

Em síntese, os canabinoides representam uma fronteira promissora, porém ainda em construção, no manejo das doenças autoimunes e inflamatórias da pele. Um campo que avança com cautela, sustentado por evidências e pela necessidade de estudos mais robustos.

Acesse o estudo completo aqui!

Quer conhecer mais sobre o uso de canabinoides na dermatologia? Assine agora a EndoPure Academy e tenha acesso a cursos exclusivos!

Artigos Relacionados

Respostas