Alzheimer além da memória: o que sabemos sobre CBD e sintomas comportamentais
O estudo britânico CANBiS-AD nasceu de uma inquietação clínica recorrente: como lidar, de forma segura e eficaz, com os sintomas comportamentais e psicológicos da demência em pessoas com doença de Alzheimer? Ansiedade, agitação, apatia, irritabilidade e alucinações, conhecidos como Behavioral and Psychological Symptoms of Dementia (BPSD), raramente aparecem de forma isolada. Muitas vezes, são esses sintomas que mais impactam a rotina do paciente e de quem cuida.
Conduzido no Reino Unido, o ensaio clínico piloto investigou o uso do canabidiol (CBD) nesse contexto específico, avaliando viabilidade, segurança e sinais iniciais de benefício. Os autores apresentaram os resultados preliminares em 2024 em uma carta ao editor da revista International Psychogeriatrics, oferecendo dados que ajudam a qualificar o debate científico sem prometer soluções imediatas.

O que foi o estudo CANBiS-AD?
O CANBiS-AD foi um ensaio clínico randomizado, duplo-cego, controlado por placebo, de fase 2a, realizado em um único centro no Reino Unido. O objetivo principal não foi comprovar eficácia definitiva, mas avaliar se o uso de CBD seria viável, seguro e aceitável em uma população idosa e clinicamente vulnerável.
O estudo recrutou pessoas com 55 anos ou mais, com diagnóstico possível ou provável de doença de Alzheimer e presença de sintomas comportamentais clinicamente relevantes, medidos pela Neuropsychiatric Inventory (NPI). Ao todo, os pesquisadores randomizaram 16 participantes, sendo 15 tratados até o final do protocolo: 8 no grupo CBD e 7 no grupo placebo.
O tratamento consistiu em cápsulas orais de CBD de 200 mg, com escalonamento progressivo até 600 mg por dia, conforme tolerabilidade. O estudo teve aprovação ética do National Health Service (NHS, o sistema público de saúde do Reino Unido) e autorização regulatória da Medicines and Healthcare Products Regulatory Agency (MHRA, a agência reguladora de medicamentos e produtos de saúde do Reino Unido), respeitando critérios rigorosos de segurança.
Quais sinais de benefício foram observados?
Embora pequeno, o estudo identificou sinais iniciais de melhora nos sintomas comportamentais da demência em pessoas com doença de Alzheimer no grupo que recebeu CBD. Na avaliação pela NPI com classificação clínica, a redução média do escore total foi numericamente maior no grupo CBD em comparação ao placebo, sugerindo diminuição da carga global de sintomas neuropsiquiátricos.
Os autores descrevem sinais de benefício em domínios considerados particularmente desafiadores na prática clínica, como:
- ansiedade
- agitação
- apatia/indiferença
- irritabilidade
- alucinações
Esses sintomas costumam impactar diretamente a qualidade de vida e a convivência familiar, o que torna qualquer sinal de modulação clínica relevante do ponto de vista assistencial.
Um achado adicional importante foi a redução do estresse do cuidador no grupo CBD, indicando que os possíveis efeitos não se limitam apenas ao paciente, mas podem repercutir no ambiente de cuidado como um todo.
Por que esses resultados exigem cautela?
Apesar de alguns resultados parecerem animadores, é fundamental contextualizar. O CANBiS-AD foi desenhado como um estudo de viabilidade, não de comprovação de eficácia. O número reduzido de participantes, as diferenças basais entre grupos e a curta duração do acompanhamento limitam ainda o conhecimento clínico.
Além disso, nem todos os domínios apresentaram melhora clara, como os delírios, possivelmente influenciados por menor gravidade inicial no grupo placebo. Por isso, os próprios autores reforçam que os dados devem ser interpretados como sinais preliminares, e não como evidência conclusiva.
Segurança e tolerabilidade do CBD em idosos com Alzheimer
Do ponto de vista da segurança, o estudo trouxe dados relevantes. De modo geral, a adesão ao tratamento foi alta, mesmo durante o período da pandemia, e além disso a maioria dos eventos adversos foi considerada leve e transitória, em linha com o perfil já descrito do CBD em outras populações.
Entre os eventos relatados, os mais comuns incluíram tontura e sonolência. Nesse contexto, houve atenção especial para o risco de quedas, que é um desfecho crítico em idosos, embora um evento grave de queda tenha ocorrido no grupo placebo após o término do tratamento.
Por fim, os autores destacam a importância do monitoramento de enzimas hepáticas, uma vez que o CBD pode elevá-las, sobretudo em pacientes idosos e em uso de múltiplos medicamentos.
O que o estudo sugere para o futuro?
O CANBiS-AD sugere que o CBD pode ser uma estratégia promissora a ser investigada para sintomas comportamentais da demência, sobretudo em domínios onde há grande necessidade terapêutica e poucas opções eficazes. No entanto, os próprios autores são claros ao afirmar que os achados não autorizam indicações clínicas diretas neste momento.
Os próximos passos recomendados incluem:
- ensaios multicêntricos com maior número de participantes
- maior duração do acompanhamento
otimização de dose e esquemas de escalonamento - monitoramento rigoroso de segurança
- inclusão sistemática de desfechos relacionados ao cuidador
Como destacou a pesquisadora Latha Velayudhan, líder do estudo, os dados atuais justificam a realização de estudos maiores e mais robustos, capazes de responder com clareza se o CBD pode, de fato, ocupar um lugar no manejo clínico dos BPSD.
Uma leitura possível: menos promessa, mais método
O estudo CANBiS-AD não propõe o CBD como tratamento da doença de Alzheimer, nem como solução definitiva para seus sintomas comportamentais. O que ele oferece é algo igualmente valioso: um sinal de que vale investigar, com método, cuidado ético e atenção à segurança.
Em um campo marcado por poucas opções terapêuticas eficazes, estudos como este ajudam a deslocar o debate do entusiasmo acrítico para a ciência responsável: aquela que avança passo a passo, sem promessas fáceis, mas com rigor e sensibilidade clínica.

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