Qualidade do sono em pacientes em uso de canabinoides
Distúrbios do sono atravessam consultórios de diferentes especialidades, mas raramente aparecem como desfecho central em pesquisas clínicas. Um estudo publicado em 2025 analisou dados reais de pacientes que receberam canabinoides prescritos no Reino Unido e trouxe um dado difícil de ignorar: a qualidade do sono melhorou de forma consistente ao longo de até um ano de acompanhamento. A pesquisa “Changes in sleep quality among patients prescribed medicinal cannabis: Real-world evidence from Project Twenty 21” publicada em 2025 na revista Drug Science, Policy and Law, avaliou como pacientes com condições crônicas responderam ao tratamento, com atenção especial para aqueles com diagnóstico de insônia, oferecendo um retrato inédito do impacto dos canabinoides no sono em contexto de prática clínica real.

Distúrbios do sono são comuns em pacientes com doenças crônicas
Problemas de sono aparecem com frequência em pacientes com condições crônicas. No estudo, cerca de 31% dos participantes relataram diagnóstico secundário de insônia, mesmo quando esse não era o motivo principal da prescrição de canabinoides.
Além disso, dificuldades para iniciar o sono, manter o sono e despertar precoce surgiram em proporções relevantes. O impacto desses distúrbios se refletiu em pior qualidade de vida, pior percepção de saúde geral e maior carga de sintomas depressivos.
Portanto, o sono já se apresentava como um fator clínico relevante antes mesmo do início do tratamento com canabinoides.
O que mudou após o início do uso de canabinoides prescritos
Após três meses de tratamento, os pesquisadores observaram melhora significativa na qualidade do sono, tanto em pacientes com diagnóstico de insônia quanto naqueles sem esse diagnóstico.
No entanto, a melhora foi mais intensa entre os pacientes com insônia, com efeitos considerados de moderados a grandes. Esse padrão se manteve ao longo do tempo.
Além do sono, o estudo também identificou:
- melhora na qualidade de vida;
- melhora na saúde geral;
- redução de sintomas depressivos;
- melhora de sintomas específicos, como dor e ansiedade, dependendo da condição de base.
Assim, esses resultados sugerem que os efeitos observados não se restringem ao sono isoladamente.
Manutenção dos efeitos ao longo de 12 meses
Um ponto relevante do estudo foi o acompanhamento longitudinal. Entre os pacientes com dados disponíveis por até um ano, as melhorias na qualidade do sono observadas aos três meses se mantiveram aos 6, 9 e 12 meses.
Mais uma vez, os maiores ganhos apareceram nos pacientes com insônia associada. Isso indica estabilidade do efeito ao longo do tempo dentro do contexto observado.
Ainda assim, os autores ressaltam que o estudo não permite afirmar causalidade, já que se trata de um desenho observacional.
Uso concomitante de medicamentos para dormir
Outro achado relevante foi a redução no uso de medicamentos prescritos para o sono, como hipnóticos do tipo “Z-drugs”.
Após três meses, aproximadamente 30% dos pacientes que utilizavam esses medicamentos deixaram de usá-los, segundo os dados autorreferidos. O estudo não avalia protocolos de retirada nem substituição, mas aponta uma associação temporal relevante.
Esse dado dialoga com outros registros observacionais citados pelos autores, que sugerem redução no uso de fármacos sedativos em pacientes tratados com canabinoides.
Limitações importantes do estudo
Os próprios autores destacam limitações que precisam ser consideradas na leitura dos resultados.
Primeiro, o estudo não possui grupo controle com placebo. Além disso, os dados se baseiam em autorrelato, o que pode introduzir vieses de expectativa.
Também existe grande variabilidade nos produtos prescritos, nas proporções de THC e CBD e nas condições clínicas tratadas. Isso impede conclusões sobre qual formulação seria mais eficaz para cada perfil de paciente.
Portanto, os resultados indicam associação, não recomendação automática.
O que esse estudo acrescenta à prática clínica
Dentro das limitações, o estudo reforça que:
- distúrbios do sono são frequentes em pacientes com doenças crônicas;
- o uso de canabinoides prescritos se associou a melhora sustentada do sono;
- pacientes com insônia podem apresentar ganhos ainda maiores;
- os benefícios podem se estender além do sono, impactando qualidade de vida.
Dessa forma, para o médico, esses dados ajudam a contextualizar o sono como um desfecho relevante ao acompanhar pacientes em tratamento com canabinoides, sem substituir a avaliação clínica individual.

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