Os desafios clínicos do canabidiol no câncer de mama
Entre promessas terapêuticas e limites científicos, o uso de canabidiol no câncer de mama vem ocupando espaço no debate oncológico contemporâneo. A partir de uma revisão sistemática recente, o artigo Cannabidiol as a novel therapeutic agent in breast cancer: evidence from literature, publicado na revista BMC Cancer, explora o que já se sabe e o que ainda precisa ser comprovado sobre o uso do CBD em diferentes subtipos da doença. Ele aborda mecanismos de ação, possíveis sinergias com terapias convencionais, dados de segurança e os principais desafios para sua aplicação clínica responsável.
A revisão sistemática reúne estudos publicados entre 1998 e 2025 e propõe o canabidiol (CBD) como um candidato promissor no contexto do câncer de mama. O artigo ainda contextualiza os principais subtipos tumorais: Luminal A, HER2+ e triplo-negativo (TNBC) e o desafio persistente da resistência às terapias convencionais. Assim, compostos derivados da Cannabis sativa passaram a ganhar atenção científica como potenciais agentes antitumorais e adjuvantes ao cuidado oncológico.

Panorama clínico e por que o CBD importa
Atualmente, o câncer de mama é uma doença altamente heterogênea, com subtipos que respondem de maneira distinta aos tratamentos. Em modelos laboratoriais, essa diversidade aparece em linhagens como Luminal A (MCF-7, ER+, PR+, HER2−), HER2+ (BT474, HCC1954) e, sobretudo, o câncer de mama triplo-negativo (TNBC: MDA-MB-231, ER−, PR−, HER2−).
O TNBC é considerado, portanto, um alvo prioritário para novas terapias, por apresentar menos opções terapêuticas e maior risco de resistência.
Na prática clínica, a resistência à quimioterapia, radioterapia e terapias-alvo mantém a busca por estratégias mais personalizadas. É nesse contexto que o tema canabidiol no câncer de mama ganha relevância. A revisão sistemática de Esmaeli et al. (BMC Cancer, 2025; 25:772) analisou 1.191 registros e selecionou 34 estudos, seguindo a metodologia PRISMA 2020. O trabalho descreve o potencial terapêutico do CBD tanto como agente antitumoral quanto como apoio ao cuidado oncológico.
“A revisão sistemática consolida evidências de que o CBD desponta como alternativa terapêutica no câncer de mama.” Esmaeli et al.
Nos modelos avaliados, o CBD demonstrou efeitos antiproliferativos, pró-apoptóticos e anti-metastáticos, com destaque no TNBC. Também modulou vias relevantes, como PI3K/Akt/mTOR, MAPK e COX-2/PGE2, além de alvos como Id-1. Um ponto importante foi a seletividade observada em relação a células não tumorais (MCF-10A, PNT2), sugerindo um perfil de segurança pré-clínico promissor.
Além disso, para mulheres com câncer de mama avançado, o interesse não se limita ao controle tumoral. A ansiedade oncológica afeta cerca de 20–25% das pacientes, e estudos piloto indicam melhora da ansiedade e da qualidade de vida com o uso de CBD.
Efeitos anticâncer do CBD: evidências pré-clínicas
Na revisão de Esmaeli et al. (2025), os efeitos anticâncer do canabidiol aparecem de forma consistente em modelos pré-clínicos de câncer de mama, especialmente no TNBC. Os estudos incluem experimentos in vitro (culturas 2D, 3D e organoides) e in vivo (xenotransplantes murinos e modelos em zebrafish).
Atividades observadas
- Inibição da proliferação celular e redução da viabilidade tumoral
- Indução de apoptose e aumento de morte celular programada
- Efeito anti-metastático, com redução de migração e invasão
- Modulação do microambiente tumoral, incluindo sinais inflamatórios e angiogênicos
Mecanismos de ação molecular do CBD
Os mecanismos descritos são multifacetados. Envolvem, portanto, receptores do Sistema Endocanabinoide (CB1 e CB2) e vias não canabinoides, como TRPV1 e PPARγ. Entre os achados recorrentes estão a geração de espécies reativas de oxigênio (ROS), estresse do retículo endoplasmático e modulação das vias PI3K/Akt, mTOR, MAPK e COX-2/PGE2.
Também foram observadas reduções na expressão de Id-1, alterações em autofagia (como Beclin1) e impacto em alvos como AMPK, STAT3, VEGF, integrinas, LOX, Cyclin D1, GADD45, EGFR e IGF-IR.
Sinergias e formulações
Os estudos relatam sinergia do CBD com doxorrubicina (DOX), Taxol e atezolizumabe, além de potencial para superar resistência terapêutica e sensibilizar células tumorais à ferroptose. Formulações inovadoras, como nanoencapsulação e lipossomas, melhoraram a biodisponibilidade e a resposta, com inibição tumoral de até 82,2% em modelos murino
Sinergias farmacológicas e formulações inovadoras
A revisão destaca o sinergismo do canabidiol com fármacos convencionais, especialmente em contextos de resistência. Assim, o CBD aparece como um modulador capaz de ampliar a morte celular por múltiplas vias.
Além disso, outro ponto é o chamado efeito entourage. Combinações do CBD com outros canabinoides, naturais ou sintéticos, podem aumentar a eficácia e, potencialmente, reduzir toxicidade. Entre os compostos citados estão WIN-55,212-2, JWH-133, JWH-015, HU308 e O-1602.
Como o CBD apresenta limitações farmacocinéticas, estratégias como nanoencapsulação, lipossomas, micropartículas e vias alternativas (transdérmica e inalatória) tornam-se centrais, portanto, para a translação clínica.
Ensaios clínicos, segurança e sintomas relacionados
Atualmente, a evidência clínica em humanos ainda é inicial. Os ensaios clínicos com canabidiol concentram-se, até o momento, no controle de sintomas, e não na confirmação de efeito antitumoral. Um exemplo é o ensaio randomizado de Nayak et al. (JAMA Network Open, 2024), com 50 mulheres com câncer de mama avançado, que mostrou redução significativa da ansiedade entre 2 e 4 horas após a ingestão de CBD.
Em relação à segurança, doses de até 400 mg foram bem toleradas em curto prazo, sem toxicidade grave relatada. Ainda assim, faltam dados de longo prazo e protocolos padronizados.
Recomendações práticas e visão prospectiva
Com base na revisão de Esmaeli et al. (2025), o próximo passo é a realização de ensaios clínicos randomizados, multicêntricos e translacionais, com foco em subtipos como o TNBC. A identificação de biomarcadores preditivos pode reduzir heterogeneidade e aumentar a chance de resposta clínica.
Dessa forma, investir em formulações que melhorem biodisponibilidade, testar combinações racionais com quimioterapia e imunoterapia e padronizar dose e via de administração são estratégias centrais para avançar.

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