CBD e obesidade: potencial terapêutico em estudo 

A obesidade e a resistência à insulina estão associadas a alterações metabólicas que podem aumentar o risco de doenças como diabetes tipo 2, hipertensão e doenças cardiovasculares. O excesso de lipídios também pode favorecer o acúmulo de gordura em órgãos como o fígado e o músculo cardíaco. Diante desse cenário, pesquisadores buscam novas possibilidades para prevenir e tratar alterações relacionadas à obesidade. Entre elas estão os fitocanabinoides, compostos presentes na Cannabis sativa que podem interagir com componentes do Sistema Endocanabinoide. 

O canabidiol (CBD) é um dos fitocanabinoides que mais desperta interesse nesse campo. O composto tem sido investigado por suas propriedades farmacológicas e por possíveis efeitos sobre processos relacionados à inflamação, ao metabolismo e ao tecido adiposo. 

Essas possibilidades são discutidas na revisão científica “Phytocannabinoids: Useful Drugs for the Treatment of Obesity? Special Focus on Cannabidiol”, publicada na revista Frontiers in Endocrinology, em 2020. No trabalho, pesquisadores analisam estudos sobre os efeitos do CBD e de outros fitocanabinoides em diferentes tecidos relacionados à obesidade. 

Mas o que esses estudos mostram? E até que ponto os resultados permitem considerar o CBD uma possível estratégia terapêutica para a obesidade?

O que o Sistema Endocanabinoide tem a ver com a obesidade? 

O Sistema Endocanabinoide participa da regulação de processos como apetite, balanço energético, metabolismo, termogênese e inflamação. Por isso, alterações nesse sistema despertaram interesse nas pesquisas sobre obesidade e doenças metabólicas. 

Esse sistema envolve os endocanabinoides, as enzimas responsáveis por sua produção e metabolismo e os receptores CB1 e CB2. Entre os endocanabinoides mais estudados estão a anandamida (AEA) e o 2-araquidonoilglicerol (2-AG). 

Embora inicialmente os receptores CB1 e CB2 tenham sido associados principalmente ao cérebro e ao sistema imunológico, respectivamente, estudos posteriores identificaram ambos em diferentes tecidos periféricos, incluindo fígado, músculo, coração, intestino e tecido adiposo. 

É nesse contexto que o CBD desperta interesse nas pesquisas sobre obesidade. Os pesquisadores investigam se sua interação com esses diferentes alvos pode influenciar processos relacionados ao metabolismo energético e ao tecido adiposo. 

Como o CBD pode influenciar o metabolismo?

O canabidiol (CBD) é um dos principais fitocanabinoides da Cannabis sativa. A revisão descreve sua interação com diferentes componentes do Sistema Endocanabinoide, incluindo CB1, CB2, GPR55, receptores adrenérgicos, 5-HT1A, canais TRP e PPARγ. 

No contexto da obesidade, o interesse está principalmente nos efeitos que o CBD pode exercer sobre tecidos envolvidos no armazenamento e no metabolismo de energia. A revisão reúne estudos sobre tecido adiposo, fígado, pâncreas e músculo cardíaco. 

É importante, porém, considerar o tipo de evidência disponível. A maior parte dos resultados descritos vem de estudos experimentais. Portanto, esses achados ajudam a compreender o potencial farmacológico do CBD, mas não comprovam sua eficácia como tratamento para obesidade.  

CBD e metabolismo das células de gordura 

O tecido adiposo participa do armazenamento de energia e da regulação metabólica. Na obesidade, alterações nesse tecido estão associadas a um estado inflamatório crônico de baixo grau. 

A revisão apresenta estudos que investigaram a ação do CBD sobre células adiposas, incluindo processos relacionados à formação e ao armazenamento de gordura e à atividade metabólica dessas células. 

Esses resultados ajudam a compreender o potencial dos fitocanabinoides sobre processos associados à obesidade. No entanto, os achados experimentais não demonstram que o CBD provoque perda de peso em pacientes. Essa relação ainda precisa ser investigada em seres humanos.  

CBD e fígado 

A obesidade e a resistência à insulina estão associadas a alterações no metabolismo hepático e podem favorecer o acúmulo de gordura no fígado. 

Pesquisadores investigaram os efeitos do CBD em modelos experimentais de esteatose hepática. Em um estudo in vitro, o composto reduziu o conteúdo de lipídios nos hepatócitos. Os autores relacionaram esse resultado ao aumento da lipólise, da atividade mitocondrial e da oxidação de ácidos graxos. 

Outro estudo avaliou o CBD em camundongos com lesão hepática provocada pelo álcool. O tratamento reduziu o acúmulo de triglicerídeos e gordura no fígado, além de marcadores relacionados à inflamação e ao estresse oxidativo. 

CBD, pâncreas e controle da glicose 

O pâncreas tem papel central na regulação da glicose e do metabolismo energético. Por isso, pesquisadores também investigaram possíveis efeitos dos canabinoides sobre as células β pancreáticas, responsáveis pela produção de insulina. 

Em um modelo de obesidade induzida pela dieta em ratos, um estudo avaliou um extrato de Cannabis sativa e observou redução do ganho de peso e dos depósitos de gordura, além de aumento do gasto energético. Como o estudo utilizou um extrato, não é possível atribuir esses resultados exclusivamente ao CBD. 

Outras pesquisas avaliaram especificamente o CBD. Em um modelo de camundongos com diabetes tipo 1, o tratamento reduziu a frequência e o desenvolvimento da doença e também diminuiu marcadores inflamatórios e a destruição das células β. 

Os resultados são promissores do ponto de vista experimental, mas não permitem afirmar que o CBD previna ou trate diabetes ou obesidade em seres humanos.  

CBD e músculo cardíaco 

A obesidade pode provocar alterações no metabolismo de lipídios e glicose que afetam o músculo cardíaco. Nesse contexto, pesquisadores investigaram possíveis efeitos do CBD sobre processos metabólicos e inflamatórios relacionados ao coração. 

Um dos estudos utilizou células cardíacas humanas expostas a altas concentrações de glicose e um modelo de camundongos com cardiomiopatia associada ao diabetes tipo 1. Nesses experimentos, o CBD reduziu a fibrose cardíaca, o estresse oxidativo, a inflamação e a morte celular. 

Nas células cardíacas humanas, o composto também reduziu a produção de espécies reativas de oxigênio e a morte celular provocadas pela exposição à glicose em alta concentração. 

Esses resultados indicam possíveis efeitos do CBD sobre mecanismos envolvidos em complicações cardíacas associadas ao diabetes. Ainda assim, estudos clínicos são necessários para determinar sua relevância terapêutica em seres humanos.  

O que os estudos dizem sobre perda de peso? 

Os estudos reunidos na revisão apontam efeitos dos fitocanabinoides relacionados ao metabolismo energético e ao tecido adiposo. Alguns resultados experimentais indicaram redução do acúmulo de gordura e aumento do gasto energético. 

Em um estudo com extrato de Cannabis sativa, ratos submetidos a uma dieta capaz de induzir obesidade apresentaram menor ganho de peso e redução dos depósitos de gordura. Como o estudo utilizou um extrato, porém, não é possível atribuir esses resultados exclusivamente ao CBD. 

A revisão também apresenta estudos com CBD que encontraram efeitos sobre processos relacionados ao metabolismo dos lipídios e da glicose. Esses resultados ajudam a explicar o interesse científico pelo potencial antiobesidade do composto. 

No entanto, observar alterações metabólicas em modelos experimentais é diferente de demonstrar perda de peso como resultado de um tratamento em seres humanos. Até o momento discutido na revisão, não há base para afirmar que o CBD seja um tratamento comprovado para obesidade.  

Quais são as limitações das evidências sobre CBD e obesidade? 

A principal limitação está no tipo de evidência disponível. A maior parte dos estudos reunidos na revisão foi realizada em células ou animais. Um efeito observado nesses modelos não necessariamente se reproduz em seres humanos. 

Além disso, os estudos utilizaram diferentes modelos, doses e formas de administração. Nem todos avaliaram o CBD isoladamente. Alguns investigaram extratos de Cannabis sativa ou outros fitocanabinoides, o que impede atribuir automaticamente seus resultados ao CBD. 

Por isso, os achados devem ser interpretados como evidências de potencial farmacológico, e não como comprovação de eficácia clínica para o tratamento da obesidade. 

Novos estudos, especialmente pesquisas clínicas, são necessários para avaliar os efeitos do CBD sobre peso corporal, composição corporal, parâmetros metabólicos, eficácia e segurança.  

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