CBD pode afetar a fertilidade masculina?
Redução do tamanho dos testículos, queda de testosterona, alterações na fertilidade e mudanças no comportamento sexual masculino. Esses são alguns dos efeitos observados em estudos experimentais reunidos no artigo “The effects of cannabidiol on male reproductive system: A literature review”, publicado no Journal of Applied Toxicology. A revisão analisou 32 estudos sobre CBD e sistema reprodutor masculino e levanta uma pergunta relevante para a prática clínica: o que já sabemos, de fato, sobre segurança reprodutiva masculina em pacientes em uso de canabidiol?
O debate costuma se concentrar em indicações terapêuticas, dose e perfil de segurança geral. No entanto, para muitos pacientes, especialmente homens jovens, casais tentando engravidar e usuários crônicos, outra questão aparece no consultório: o CBD pode interferir em testosterona, espermatogênese ou fertilidade? Os dados disponíveis merecem atenção.

O que a revisão científica avaliou
Os autores realizaram uma busca na base PubMed com artigos publicados entre 1977 e 2018, todos em língua inglesa. Foram incluídos estudos in vivo e in vitro que investigaram os efeitos farmacológicos do CBD sobre o sistema reprodutor masculino em vertebrados e invertebrados. Ao final, 32 publicações preencheram os critérios de seleção.
Entre os vertebrados, os modelos estudados foram:
- 44% ratos
- 38% camundongos
- 3% macacos
- 3% homens
Os 12% restantes envolveram estudos com ouriço-do-mar, modelo experimental usado em pesquisas de fertilização. Outro dado relevante: a maioria dos trabalhos avaliou exposições de curta duração. Cerca de 61% analisaram uso agudo e 26% uso subagudo.
Por que o sistema reprodutor entra nessa discussão
Os autores lembram que o Sistema Endocanabinoide participa da fisiologia reprodutiva. Receptores canabinoides estão presentes em neurônios ligados ao eixo hormonal, mas também em tecidos periféricos como os testículos.
Isso significa que o CBD, ao modular esse sistema, pode teoricamente influenciar:
- liberação hormonal
- função testicular
- maturação espermática
- comportamento sexual
- fertilização
Além disso, o CBD atua por múltiplas vias, incluindo inibição da enzima FAAH, aumento indireto de anandamida e interação com receptores como CB1, CB2 e TRPV1.
O que é o Sistema Endocanabinoide?
O Sistema Endocanabinoide é uma rede de sinalização biológica presente em todo o organismo e envolvida na manutenção da homeostase, ou seja, do equilíbrio interno do corpo. Ele participa da regulação de funções como sono, dor, humor, apetite, memória, inflamação, resposta imunológica e reprodução.
Esse sistema é formado por três componentes principais:
1. Endocanabinoides
São moléculas produzidas naturalmente pelo corpo, como a anandamida e o 2-AG. Elas atuam como mensageiros químicos.
2. Receptores canabinoides
Os principais são os receptores CB1 e CB2. O CB1 está mais presente no sistema nervoso central, enquanto o CB2 aparece com maior frequência em células imunes e tecidos periféricos. Ambos também podem ser encontrados em órgãos reprodutivos.
3. Enzimas metabólicas
São responsáveis por sintetizar e degradar os endocanabinoides após sua ação.
O interesse clínico nesse sistema aumentou porque compostos da Cannabis sativa, como CBD e THC, interagem direta ou indiretamente com essa rede biológica. Por isso, seus efeitos podem atingir múltiplos sistemas do organismo, inclusive o hormonal e o reprodutivo.
O que os estudos mostraram sobre testosterona e hormônios
Uma das áreas mais investigadas foi o impacto endócrino. Em alguns experimentos com roedores, doses agudas de CBD reduziram níveis plasmáticos de testosterona. Em outros, houve alteração de LH e FSH, hormônios centrais do eixo reprodutivo masculino.
Em macacos expostos por 90 dias a doses de 30, 100 e 300 mg/kg por via oral, os autores relataram redução de testosterona nas maiores doses. Também foram observadas elevações de LH e FSH após o término da exposição em parte dos animais.
Já em alguns modelos murinos, não houve mudanças hormonais significativas. Isso mostra um ponto essencial para o clínico: os resultados não são lineares. Esse tipo de resposta variável já foi observado em outras análises da literatura sobre canabinoides. Dose, espécie animal, tempo de uso e fase da vida parecem influenciar fortemente o desfecho.
Portanto, não é correto afirmar que o CBD reduz testosterona de forma universal. O que se pode dizer é que há sinais experimentais de possível interferência hormonal.
Alterações testiculares e espermatogênese
Outro bloco importante da revisão envolve a estrutura testicular. Alguns estudos relataram redução do peso dos testículos após exposição ao CBD. Em ratos, por exemplo, doses intraperitoneais de 2 mg/kg por 10 dias estiveram associadas a esse achado.
Em modelos com exposição inalatória por 17 dias, também houve redução do peso testicular nas doses mais altas.
Na análise histológica, foram descritas alterações como redução de células germinativas, vacuolização tubular, descamação celular, aumento do lúmen dos túbulos seminíferos e áreas de atrofia. Alguns estudos também apontaram redução de células de Sertoli e impacto em etapas específicas da espermatogênese.
Esses dados chamam atenção porque células germinativas e células de Sertoli são centrais para a produção adequada de espermatozoides.
O que aconteceu com os espermatozoides
Os estudos também examinaram morfologia espermática e capacidade fértil. Em camundongos, exposições prolongadas aumentaram anormalidades na cabeça dos espermatozoides. Em um experimento de 35 dias, o efeito foi estatisticamente significativo.
Já em modelos de fertilidade, machos expostos ao CBD impregnaram menos fêmeas e geraram menor número de filhotes em determinados protocolos experimentais. Em outras palavras, alguns trabalhos sugerem que o impacto não ficou restrito a marcadores laboratoriais. Houve repercussão funcional reprodutiva em certos cenários.
Ouriço-do-mar e fertilização
Embora pareça distante da prática clínica, estudos com ouriço-do-mar ajudam a entender mecanismos celulares da fecundação. Na revisão, concentrações de 0,1 a 10 μM de CBD impediram que espermatozoides fertilizassem ovos em testes laboratoriais. Em outro experimento, 100 μM bloquearam a reação acrossômica, etapa necessária para penetração no óvulo.
Isso não significa equivalência direta com reprodução humana. Significa que o CBD demonstrou potencial para interferir em processos celulares fundamentais da fertilização.
E comportamento sexual masculino?
Sim, esse tópico também apareceu. A revisão cita estudos em camundongos nos quais doses crônicas de CBD prejudicaram o desempenho sexual. Em outro modelo, houve resposta bifásica: dose menor associada a piora e dose maior associada a melhora de determinados parâmetros.
Esse padrão é familiar na farmacologia canabinoide. Nem sempre mais dose significa mais efeito, e respostas paradoxais podem ocorrer.
O principal limite desses dados
Apesar de chamativos, esses resultados exigem interpretação cuidadosa. A maioria dos estudos foi feita em animais, com doses altas e desenhos heterogêneos. Há poucos dados clínicos robustos em homens utilizando CBD em condições terapêuticas reais, com formulações padronizadas e acompanhamento prolongado.
Além disso, rotas de administração variaram bastante: via oral, inalatória, intraperitoneal e incubação celular. Isso dificulta comparações diretas.
Em termos de medicina baseada em evidências, estamos diante de um sinal biológico relevante, não de uma conclusão definitiva para humanos.
O que o médico pode fazer na prática
Para pacientes sem desejo reprodutivo imediato, o uso de CBD pode seguir avaliação tradicional de risco-benefício conforme indicação clínica, especialmente considerando erros comuns na prática.
Já em grupos específicos, a conversa deve ser mais detalhada: homens em investigação de infertilidade, casais tentando concepção, pacientes jovens em uso contínuo, indivíduos com hipogonadismo, alterações seminais prévias ou necessidade de doses elevadas por tempo prolongado. Nesses casos, pode ser razoável discutir monitorização clínica, hormonal e, quando pertinente, análise seminal.
| Área avaliada | O que a revisão encontrou | Dados relevantes do artigo | Relevância clínica |
| Escopo da revisão | Estudos sobre CBD e sistema reprodutor masculino | 32 estudos publicados entre 1977 e 2018 | Tema ainda em consolidação científica |
| Tipo de evidência | Predomínio de modelos experimentais | Estudos in vivo e in vitro | Poucos dados clínicos diretos em humanos |
| Espécies estudadas | Maioria em roedores | 44% ratos, 38% camundongos, 3% macacos, 3% homens, 12% ouriço-do-mar | Evidência translacional limitada |
| Tempo de exposição | Predomínio de curto prazo | 61% agudos, 26% subagudos | Faltam estudos de uso crônico prolongado |
| Testosterona | Em alguns modelos houve redução | Queda observada em certos estudos com roedores e primatas | Importante em libido, massa magra e fertilidade |
| LH e FSH | Alterações variáveis conforme dose/modelo | Em macacos tratados por 90 dias, alterações após exposição | Sugere impacto no eixo hipotálamo-hipófise-gônadas |
| Peso testicular | Redução em parte dos estudos | Ratos com 2 mg/kg por 10 dias apresentaram redução | Pode indicar efeito gonadal em modelos animais |
| Espermatogênese | Alterações celulares e histológicas | Redução de células germinativas e mudanças tubulares | Relevante para qualidade seminal |
| Morfologia espermática | Mais anormalidades em alguns protocolos | Alterações maiores após 35 dias em camundongos | Possível impacto reprodutivo funcional |
| Fertilidade | Menor capacidade reprodutiva em alguns modelos | Menor prenhez e menos filhotes em certos estudos | Dado importante, porém ainda animal |
| Comportamento sexual | Resposta dependente de dose | Em alguns estudos houve piora; em outros, resposta bifásica | Reforça individualização clínica |
| Conclusão dos autores | Sinal de risco, sem veredito definitivo | Possíveis efeitos negativos, mas evidência ainda limitada | Necessidade de estudos humanos robustos |
O CBD não deve ser tratado como vilão reprodutivo nem como molécula isenta de questionamentos. O melhor retrato atual está no meio-termo. Há evidências experimentais consistentes o suficiente para justificar prudência clínica e novas pesquisas. Ao mesmo tempo, ainda faltam estudos humanos de alta qualidade para afirmar que o CBD compromete a fertilidade masculina em contexto terapêutico usual.
Para o prescritor, isso se traduz em medicina individualizada: considerar indicação, dose, duração do uso e objetivos reprodutivos do paciente antes de decidir.

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