O corpo também produz seus próprios canabinoides

Quando se fala em canabinoides, muita gente pensa imediatamente na planta cannabis sativa. Mas existe um detalhe curioso que ainda surpreende até profissionais da saúde: o próprio organismo humano também produz substâncias semelhantes aos canabinoides da planta. São os chamados endocanabinoides.

Essas moléculas fazem parte do Sistema Endocanabinoide, um sistema biológico presente em diferentes órgãos e tecidos do corpo, que participa da regulação de funções importantes para o equilíbrio fisiológico. Segundo a revisão científica The Development and Therapeutic Potential of Classical and Next-Generation Cannabinoid Ligands, o Sistema Endocanabinoide desempenha papel central na manutenção da homeostase e participa da modulação de funções como dor, humor, metabolismo, plasticidade sináptica e resposta imune.

O fato de que essas moléculas não vêm apenas de fontes externas nem ficam armazenadas no organismo aguardando utilização foi revelador. O próprio corpo é capaz de produzir seus canabinoides quando necessário, em resposta a diferentes demandas fisiológicas. Essa descoberta, relativamente recente na história da medicina, transformou a compreensão científica sobre como o organismo mantém seu equilíbrio interno.

Hoje, sabe-se que moléculas como a anandamida e o 2-AG participam de mecanismos relacionados à comunicação celular, à adaptação ao estresse e à manutenção da homeostase, revelando que o Sistema Endocanabinoide exerce um papel muito mais amplo do que se imaginava há poucas décadas.

O que são endocanabinoides?

O termo “endocanabinoide” significa literalmente “canabinoide produzido dentro do corpo”. Segundo a revisão científica A maquinaria molecular necessária para processar mensageiros lipídicos endocanabinoides e seus respectivos receptores, publicada na BrJP, a anandamida e o 2-AG foram os primeiros e permanecem entre os principais endocanabinoides descritos na literatura científica. 

Essas substâncias atuam como mensageiros químicos produzidos naturalmente pelo organismo. Diferentemente de muitos neurotransmissores clássicos, os endocanabinoides não ficam armazenados aguardando liberação. O corpo os produz sob demanda, conforme determinadas necessidades fisiológicas surgem.

Depois de produzidos, eles interagem com receptores distribuídos em diferentes regiões do organismo, especialmente os receptores CB1 e CB2, ajudando a modular diversas respostas biológicas.

Embora a anandamida seja o endocanabinoide mais conhecido pelo público, pesquisas mostram que o 2-AG está presente em concentrações muito mais elevadas no cérebro. Os níveis de 2-AG podem ser até mil vezes maiores que os de anandamida nesta região. Atualmente, muitos pesquisadores o consideram o principal  ligante endógeno dos receptores canabinoides no sistema nervoso central.

Por que a anandamida ficou conhecida como “molécula da felicidade”?

Entre os endocanabinoides mais estudados, a anandamida costuma chamar atenção pelo próprio nome. O termo deriva da palavra sânscrita ananda, que pode ser traduzida como “bem-estar” ou “estado de felicidade”.

Esse apelido surgiu porque a molécula participa de mecanismos relacionados ao humor, à sensação de recompensa, à resposta emocional, ao prazer e à adaptação ao estresse.

Isso não significa que exista uma “substância da felicidade” isolada no cérebro. As emoções humanas dependem de sistemas extremamente complexos. Ainda assim, a anandamida participa de circuitos importantes relacionados ao equilíbrio emocional e à regulação fisiológica do organismo.

O Sistema Endocanabinoide funciona como um regulador interno

O papel do Sistema Endocanabinoide não é ativar funções específicas, mas ajudar o organismo a manter estabilidade diante das mudanças do ambiente e das demandas do cotidiano.

Esse equilíbrio fisiológico recebe o nome de homeostase. 

Isso significa que o sistema participa da modulação da sinalização neuronal e de diversos processos fisiológicos mediados por seus receptores, ligantes endógenos e enzimas metabólicas. 

Por isso, pesquisadores frequentemente descrevem o Sistema Endocanabinoide como um modulador biológico capaz de ajustar diferentes funções conforme necessário.

Um aspecto particularmente interessante é a forma como esse sistema atua na comunicação entre neurônios. Segundo uma revisão publicada no periódico científico Neuropharmacology, os endocanabinoides frequentemente funcionam como sinais de retroalimentação. Em vez de estimular a atividade cerebral, eles podem reduzir a liberação de neurotransmissores quando a atividade neural se torna excessiva, ajudando a manter o equilíbrio da comunicação entre as células nervosas.

Essa capacidade de ajuste fino ajuda a explicar por que o sistema está envolvido em funções tão diversas quanto memória, resposta ao estresse, sono e percepção da dor.

O corpo produz canabinoides o tempo inteiro?

Nem sempre.

Os endocanabinoides são produzidos conforme determinadas necessidades fisiológicas surgem. Situações relacionadas ao estresse, dor, atividade física, inflamação, sono e alimentação podem influenciar essa sinalização biológica.

Além disso, essas moléculas costumam permanecer ativas por pouco tempo. Após exercerem sua função, são rapidamente degradadas por enzimas específicas do organismo. Essa característica permite respostas fisiológicas rápidas e altamente reguladas.

Por que os receptores CB1 chamam tanta atenção?

Uma das razões para o crescente interesse científico nesse sistema é a ampla distribuição dos receptores CB1 no organismo.

Segundo pesquisadores da área, os receptores CB1 estão entre os receptores acoplados à proteína G mais abundantes do sistema nervoso central. Eles são encontrados em regiões cerebrais envolvidas em funções como memória, emoção, percepção da dor, aprendizagem, coordenação motora e resposta ao estresse.

Essa distribuição ajuda a explicar por que alterações na sinalização endocanabinoide podem influenciar diferentes aspectos da fisiologia humana.

O que isso tem a ver com os canabinoides da planta

Os fitocanabinoides presentes na planta cannabis sativa, como THC e CBD, despertam interesse científico justamente porque conseguem interagir, direta ou indiretamente, com esse sistema biológico já existente no organismo.

Mas é importante entender que os efeitos dos compostos da planta não reproduzem exatamente o funcionamento dos endocanabinoides naturais. Cada substância possui características farmacológicas próprias.

O THC, por exemplo, apresenta ação mais direta sobre receptores CB1. Já o CBD possui atuação mais complexa e multifatorial, envolvendo diferentes vias biológicas além dos receptores clássicos do Sistema Endocanabinoide.

Essa distinção é importante porque ajuda a evitar uma simplificação comum: imaginar que os canabinoides da planta simplesmente substituem substâncias produzidas naturalmente pelo organismo.

Por que esse sistema se tornou tão importante para a medicina

Nas últimas décadas, o Sistema Endocanabinoide passou a receber atenção crescente da pesquisa científica porque participa de múltiplos mecanismos fisiológicos relevantes para diferentes áreas da saúde.

Ainda de acordo com a revisão científica The Development and Therapeutic Potential of Classical and Next-Generation Cannabinoid Ligands, avanços recentes vêm destacando o potencial terapêutico desse sistema em contextos relacionados à inflamação, neuroproteção, regulação metabólica e desenvolvimento de novos fármacos canabinoides. 

Ao mesmo tempo, os pesquisadores buscam compreender melhor como essas interações acontecem na prática clínica e quais aplicações realmente apresentam evidência científica robusta.

Isso significa que o Sistema Endocanabinoide se tornou um dos campos mais promissores da fisiologia moderna. Mas também um dos mais complexos. 

Muito além da cannabis sativa

Entender que o próprio corpo produz seus próprios canabinoides muda a forma como muita gente enxerga esse tema.

Mais do que uma curiosidade científica, o Sistema Endocanabinoide ajuda a revelar como o organismo mantém equilíbrio diante de estímulos internos e externos o tempo inteiro. Funções como sono, humor, percepção da dor, apetite, inflamação e resposta ao estresse dependem de mecanismos regulatórios sofisticados, e esse sistema participa diretamente dessa dinâmica.

O avanço das pesquisas também tem mostrado que os endocanabinoides não atuam de forma isolada. Eles fazem parte de uma complexa rede de comunicação celular que ajuda o organismo a adaptar suas respostas fisiológicas às necessidades de cada momento.

Por isso, o estudo dos endocanabinoides vem ampliando não apenas o conhecimento sobre o uso dos canabinoides na medicina, mas também a própria compreensão da fisiologia humana.

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