Canabinoides na esclerose múltipla: o que as evidências mostram sobre espasticidade?
A esclerose múltipla é uma doença neurológica crônica caracterizada por processos inflamatórios e degenerativos que afetam a comunicação entre o cérebro, a medula espinhal e o restante do organismo. Mesmo com os avanços observados nos tratamentos modificadores da doença, muitos pacientes continuam convivendo com sintomas persistentes que comprometem a funcionalidade e a qualidade de vida.
Entre esses sintomas, a espasticidade está entre os mais frequentes e incapacitantes. Rigidez muscular, espasmos involuntários, dor e dificuldade de movimentação podem limitar atividades cotidianas e representar um desafio importante no manejo clínico da doença.
Nesse contexto, os canabinoides passaram a despertar interesse crescente como uma possível estratégia complementar para o controle sintomático. Mas o que as melhores evidências científicas realmente mostram sobre essa possibilidade?
Uma das análises mais abrangentes sobre o tema foi publicada em 2022 na revista Cochrane Database of Systematic Reviews. A revisão sistemática Cannabis and cannabinoids for symptomatic treatment for people with multiple sclerosis reuniu os principais estudos clínicos disponíveis e oferece um panorama importante sobre o papel dos canabinoides no tratamento sintomático da esclerose múltipla.

O que é espasticidade
A espasticidade é um distúrbio motor caracterizado pelo aumento involuntário do tônus muscular. Na prática, isso significa que determinados músculos permanecem excessivamente contraídos, dificultando movimentos voluntários e causando desconforto.
Em pessoas com esclerose múltipla, a espasticidade pode se manifestar de diferentes formas. Alguns pacientes relatam rigidez muscular persistente, enquanto outros apresentam espasmos, cãibras, sensação de tensão muscular ou dificuldade para caminhar e realizar atividades cotidianas.
Além das limitações físicas, a espasticidade pode interferir no sono, aumentar a fadiga e contribuir para quadros de dor crônica, tornando-se um dos sintomas mais desafiadores da doença.
Por que os canabinoides passaram a ser estudados?
O interesse científico pelos canabinoides surgiu a partir da descoberta do Sistema Endocanabinoide, uma rede de sinalização biológica envolvida na modulação de diferentes funções fisiológicas, incluindo controle motor, percepção da dor, resposta inflamatória e comunicação neuronal.
Como alterações nesses mecanismos estão presentes em diversas condições neurológicas, pesquisadores passaram a investigar se substâncias capazes de interagir com esse sistema poderiam contribuir para o manejo de sintomas associados à esclerose múltipla.
Entre os produtos mais estudados está o nabiximols, um medicamento à base de extratos padronizados de THC e CBD administrado por via oromucosal, aprovado em alguns países para o tratamento da espasticidade associada à esclerose múltipla. Foi justamente esse produto que concentrou grande parte das evidências analisadas pela revisão.
O que a revisão Cochrane avaliou
A revisão sistemática reuniu 25 estudos clínicos randomizados envolvendo 3.763 participantes com esclerose múltipla. Desses, 2.290 receberam algum tipo de intervenção à base de canabinoides.
Os pesquisadores analisaram os efeitos dessas intervenções sobre diferentes sintomas associados à doença, incluindo espasticidade, dor neuropática, qualidade de vida, função física e segurança do tratamento. O objetivo foi avaliar não apenas a eficácia dos canabinoides, mas também a qualidade das evidências disponíveis para orientar a prática clínica.
As evidências sobre espasticidade
Segundo os autores, existe evidência moderada de que os canabinoides podem aumentar a probabilidade de melhora clinicamente relevante da espasticidade em pessoas com esclerose múltipla.
Os números ajudam a compreender melhor a magnitude desse efeito. Nos estudos analisados, aproximadamente 287 em cada 1.000 participantes tratados com placebo relataram melhora significativa da espasticidade. Entre aqueles que receberam canabinoides, esse número aumentou para cerca de 502 em cada 1.000 participantes. Em termos absolutos, cerca de 50% dos pacientes tratados relataram melhora, contra aproximadamente 29% daqueles que receberam placebo.
Esses resultados sugerem um benefício potencial para parte dos pacientes. No entanto, os próprios autores destacam que a resposta ao tratamento pode variar significativamente entre indivíduos.
Outro aspecto importante é que a melhora relatada pelos pacientes nem sempre foi observada com a mesma intensidade nas avaliações objetivas realizadas por profissionais de saúde. Essa diferença entre medidas subjetivas e escalas clínicas é relativamente comum em estudos envolvendo sintomas complexos, como dor e espasticidade.
O perfil de segurança observado nos estudos
A segurança foi um dos aspectos analisados pela revisão. Os pesquisadores observaram aumento da ocorrência de eventos adversos não graves entre os participantes que utilizaram canabinoides em comparação aos grupos controle. Entre os efeitos relatados com maior frequência estavam tontura, fadiga, sonolência e alterações cognitivas transitórias.
A revisão também identificou uma tendência ao aumento da interrupção do tratamento devido a eventos adversos. Já em relação aos eventos graves, as evidências disponíveis ainda foram consideradas insuficientes para determinar com segurança se existe aumento de risco associado ao uso dessas intervenções.
Por isso, os autores ressaltam a necessidade de estudos com acompanhamento mais prolongado para compreender melhor o perfil de segurança desses tratamentos.
O que esses resultados significam para a prática clínica?
Para o profissional de saúde, o principal achado da revisão é que os canabinoides podem representar uma opção complementar para o manejo da espasticidade em alguns pacientes, mas não substituem os tratamentos convencionais nem modificam a progressão da esclerose múltipla. Os estudos analisados investigaram seu papel no manejo de sintomas específicos, especialmente a espasticidade.
Além disso, os resultados sugerem que eventuais benefícios podem variar entre indivíduos e precisam ser avaliados dentro de um contexto clínico mais amplo, considerando características do paciente, objetivos terapêuticos, perfil de segurança e qualidade da evidência disponível.
Por isso, a tomada de decisão clínica deve sempre estar baseada em uma avaliação individualizada e alinhada aos princípios da medicina baseada em evidências.
O que ainda precisa ser investigado
Embora a pesquisa sobre canabinoides em esclerose múltipla tenha avançado significativamente nos últimos anos, muitas perguntas permanecem em aberto.
Os autores da revisão destacam a necessidade de estudos maiores, com acompanhamento de longo prazo e metodologias mais robustas para esclarecer questões relacionadas à eficácia, segurança e identificação dos pacientes que podem se beneficiar mais dessas intervenções.
Conclusão
A espasticidade continua sendo um dos sintomas mais impactantes da esclerose múltipla, afetando mobilidade, conforto e qualidade de vida de muitos pacientes.
Segundo a revisão sistemática publicada pela Cochrane Database of Systematic Reviews, os canabinoides apresentam evidência de certeza moderada para aumentar a probabilidade de melhora clinicamente relevante da espasticidade em parte dos pacientes com a doença. No entanto, as evidências permanecem mais limitadas para outros desfechos.
Os resultados indicam que os canabinoides podem ter um papel no manejo da espasticidade associada à esclerose múltipla, mas também mostram por que a interpretação cuidadosa das evidências continua sendo essencial. Em medicina, resultados promissores são apenas o início da conversa.
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