Dor crônica: o que explica o potencial terapêutico dos canabinoides?
Segundo a International Association for the Study of Pain (IASP), aproximadamente um em cada cinco adultos vive com dor crônica. Esse dado representa um dos maiores desafios da medicina moderna. Além do impacto físico, a dor crônica compromete o sono, a funcionalidade, a saúde mental e a qualidade de vida dos pacientes.
Nos últimos anos, o interesse pelos canabinoides como alternativa terapêutica cresceu de forma significativa. No entanto, apesar dos avanços científicos, ainda existem dúvidas sobre os mecanismos envolvidos e sobre a real magnitude dos benefícios observados na prática clínica.
A revisão científica Cannabis for Chronic Pain: Mechanistic Insights and Therapeutic Challenges, publicada em 2025, reuniu evidências sobre os mecanismos de ação dos canabinoides na dor crônica e analisou os principais desafios relacionados à sua utilização terapêutica.

O Sistema Endocanabinoide e o controle da dor
A descoberta do Sistema Endocanabinoide abriu novas perspectivas para a compreensão dos mecanismos fisiológicos envolvidos na dor.
Esse sistema é composto principalmente pelos receptores canabinoides CB1 e CB2, pelos endocanabinoides – como anandamida (AEA) e 2-araquidonoilglicerol (2-AG) – e pelas enzimas responsáveis por sua síntese e degradação.
Presentes em todo o corpo, os receptores CB1 estão distribuídos predominantemente no sistema nervoso central, especialmente em regiões relacionadas à memória, cognição, coordenação motora, apetite e percepção da dor. Já os receptores CB2 são encontrados principalmente em células do sistema imunológico e estão fortemente envolvidos nos processos inflamatórios.
Segundo os autores, o Sistema Endocanabinoide participa da regulação de diversas funções fisiológicas, incluindo memória, comportamento, controle motor, apetite e modulação da dor.
Como a dor crônica se desenvolve?
A dor crônica é definida como uma dor persistente ou recorrente por pelo menos três meses. Em muitos casos, ela persiste mesmo após a resolução da lesão inicial ou surge sem uma causa evidente. Além disso, seu desenvolvimento envolve alterações complexas no sistema nervoso.
Entre os mecanismos mais estudados estão:
- Sensibilização periférica;
- Sensibilização central;
- Hiperalgesia;
- Alodinia.
Na sensibilização periférica, mediadores inflamatórios aumentam a excitabilidade dos nociceptores, tornando-os mais sensíveis aos estímulos dolorosos. Já na sensibilização central, ocorre um aumento sustentado da excitabilidade neuronal no sistema nervoso central, o que favorece a amplificação dos sinais dolorosos e a manutenção da dor ao longo do tempo.
Assim, esses fenômenos ajudam a explicar por que muitos pacientes continuam sentindo dor mesmo após o desaparecimento da lesão que originou o quadro.
Onde os canabinoides atuam?
De acordo com a revisão, o Sistema Endocanabinoide participa da modulação da dor em diferentes níveis.
- Modulação periférica
Nos tecidos periféricos, os receptores CB1 presentes em terminações nervosas sensoriais ajudam a regular a transmissão dos estímulos nociceptivos. Por sua vez, os receptores CB2 atuam sobre células imunes e queratinócitos, contribuindo para a redução de processos inflamatórios e para a liberação de β-endorfinas.
- Modulação espinal
Na medula espinhal, a ativação dos receptores canabinoides pode reduzir a liberação de neurotransmissores envolvidos na transmissão da dor. Portanto, esse mecanismo contribui para efeitos antinociceptivos observados em modelos experimentais.
- Modulação supraspinal
Os autores também descrevem ações em estruturas cerebrais relacionadas à percepção e ao componente emocional da dor. Nesse contexto, a ativação dos receptores CB1 pode influenciar tanto a intensidade percebida quanto os aspectos afetivos associados ao sofrimento doloroso.
THC e CBD apresentam mecanismos distintos
O THC atua como agonista parcial dos receptores CB1 e CB2 e está associado aos efeitos psicoativos dos canabinoides. Além disso, possui propriedades analgésicas, antieméticas e estimuladoras do apetite.
Já o CBD não ativa diretamente os receptores CB1 e CB2 e não produz os efeitos psicotrópicos característicos do THC. Estudos experimentais apontam potencial anti-inflamatório, ansiolítico, anticonvulsivante, neuroprotetor e analgésico.
O efeito entourage ainda desperta interesse científico
A revisão também aborda o chamado efeito entourage. Esse conceito sugere que diferentes compostos da Cannabis sativa podem atuar de forma sinérgica, produzindo efeitos terapêuticos distintos daqueles observados quando os compostos são administrados isoladamente.
Um estudo clínico citado pelos autores observou maior redução da intensidade da dor em pacientes com câncer avançado tratados com uma combinação de THC e CBD quando comparados ao THC isolado ou placebo.
Por outro lado, revisões mais recentes apresentaram resultados menos consistentes, demonstrando que o tema ainda permanece em investigação.
O que mostram os estudos clínicos?
A revisão analisou diversos ensaios clínicos randomizados envolvendo diferentes formulações de canabinoides. Os resultados foram heterogêneos.
Alguns estudos demonstraram redução da dor neuropática e melhora do sono, especialmente com formulações contendo THC e CBD.
Entretanto, outros trabalhos não identificaram diferenças significativas em comparação ao placebo, incluindo estudos envolvendo dor oncológica, dor abdominal crônica e dor relacionada à quimioterapia.
Segundo os autores, essa variabilidade pode estar relacionada a fatores como:
- Diferenças entre formulações;
- Variações nas doses utilizadas;
- Heterogeneidade dos pacientes;
- Diferenças nos tipos de dor estudados.
Quais são as principais limitações?
Apesar do crescente interesse clínico, a revisão destaca limitações importantes. Uma delas é a escassez de estudos robustos e de longa duração capazes de estabelecer conclusões definitivas sobre eficácia e segurança.
Além disso, os autores chamam atenção para possíveis interações medicamentosas, especialmente envolvendo THC e CBD, que podem influenciar o metabolismo de outros fármacos.
Os eventos adversos mais frequentemente relatados incluem:
THC
- Tontura;
- Sonolência;
- Alterações cognitivas;
- Ansiedade;
- Taquicardia.
CBD
- Sonolência;
- Fadiga;
- Diarreia;
- Redução do apetite;
- Elevação de transaminases hepáticas.
Os autores ressaltam a importância do monitoramento clínico, especialmente em pacientes que utilizam múltiplos medicamentos.
O que esse estudo significa para a prática clínica?
A revisão reforça que o Sistema Endocanabinoide desempenha papel relevante na modulação da dor e que os canabinoides apresentam mecanismos biologicamente plausíveis para atuar em diferentes etapas do processamento nociceptivo.
No entanto, as evidências clínicas ainda apresentam resultados heterogêneos. Embora alguns estudos apontem benefícios em determinados cenários, especialmente na dor neuropática, permanecem dúvidas sobre a magnitude desses efeitos e sobre quais pacientes tendem a responder melhor ao tratamento.
Assim, para os profissionais da saúde, isso reforça a necessidade de uma abordagem individualizada, baseada em evidências e acompanhada de monitoramento adequado.
Conclusão
A compreensão dos mecanismos do Sistema Endocanabinoide ajuda a explicar por que os canabinoides despertam interesse crescente no manejo da dor crônica. Entretanto, os resultados clínicos disponíveis ainda não permitem generalizações amplas. Novos estudos, com metodologias mais robustas e protocolos padronizados, serão fundamentais para definir o real papel dos canabinoides no tratamento das diferentes formas de dor crônica.
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