Estudo observacional: canabinoides na esclerose múltipla
A esclerose múltipla afeta cerca de 2,9 milhões de pessoas em todo o mundo, segundo a estimativa mais recente do Atlas of MS, iniciativa da Multiple Sclerosis International Federation (MSIF) que reúne dados epidemiológicos sobre a doença em diferentes países. A doença pode provocar sintomas muito diferentes, como alterações motoras e sensitivas, fadiga, dor, problemas de sono e alterações cognitivas, com impacto significativo na qualidade de vida.
Controlar esses sintomas nem sempre é simples. Mesmo quando existem tratamentos disponíveis, a resposta pode variar entre os pacientes, e alguns continuam apresentando manifestações que interferem na rotina e no bem-estar. É nesse contexto que os produtos à base de canabinoides vêm sendo investigados como uma possibilidade para o manejo de determinados sintomas da esclerose múltipla.
Mas o que acontece quando esses produtos deixam o ambiente controlado de um ensaio clínico e passam a fazer parte da prática médica? Os pacientes realmente relatam melhora ao longo do tempo? Quais sintomas parecem responder melhor? E o que acontece com a segurança durante um acompanhamento mais prolongado?
Essas são algumas das questões abordadas pelo estudo UK Medical Cannabis Registry: An Updated Analysis of Cannabis-Based Medicinal Products for Multiple Sclerosis, publicado na revista Medical Cannabis and Cannabinoids em 2025. A pesquisa analisou dados do UK Medical Cannabis Registry (UKMCR), acompanhando pacientes tratados com produtos à base de canabinoides por até 24 meses.
Neste texto, vamos entender o que o estudo avaliou, quais foram seus principais resultados e, principalmente, o que esses dados permitem entender sobre o uso dessa terapêutica na esclerose múltipla.

Por que estudar canabinoides na esclerose múltipla?
A esclerose múltipla é uma doença neurodegenerativa e autoimune que afeta o sistema nervoso central. Sua evolução pode envolver diferentes regiões do cérebro e da medula espinhal, produzindo manifestações variadas entre os pacientes.
Entre os possíveis sintomas estão alterações motoras e sensitivas, manifestações psiquiátricas e problemas urinários e intestinais. A dor crônica também é frequente, com origem predominantemente neuropática ou musculoesquelética. Segundo os autores, ela pode afetar entre 50% e 75% das pessoas com esclerose múltipla.
O tratamento envolve terapias modificadoras da doença, destinadas a reduzir sua progressão, além de medicamentos voltados ao controle dos sintomas. Para espasticidade e dor neuropática, diferentes opções farmacológicas já fazem parte da prática clínica. No entanto, os autores destacam que a eficácia e a tolerabilidade dessas terapias podem ser limitadas em alguns pacientes.
Em um cenário no qual estima-se que pelo menos 300 pessoas sejam diagnosticadas com esclerose múltipla todos os dias em todo o mundo, ainda segundo dados do Atlas of MS, encontrar estratégias para o manejo dos sintomas continua sendo um desafio clínico relevante. Assim, os canabinoides passaram a ser investigados como uma possibilidade para o manejo de alguns sintomas da doença.
Como o estudo foi realizado?
O trabalho foi desenvolvido como uma série de casos observacional, utilizando dados prospectivos do UK Medical Cannabis Registry. O registro começou a coletar dados em 2019 e reúne pacientes do Reino Unido e das chamadas Crown Dependencies, que incluem Jersey, Guernsey e a Ilha de Man, que receberam prescrição de produtos à base de canabinoides e consentiram em participar.
Para esta análise, os pesquisadores consideraram pacientes cuja principal indicação para o uso dos produtos era a esclerose múltipla. Também foram excluídos participantes com menos de dois anos de acompanhamento no registro ou sem pelo menos uma avaliação inicial dos desfechos relatados pelos pacientes.
Embora o registro tivesse 34.563 pacientes cadastrados em janeiro de 2025, apenas 203 participantes preencheram os critérios utilizados nesta análise. A idade média foi de aproximadamente 48 anos, e 52,7% dos participantes eram homens.
Os pesquisadores acompanharam os participantes no início do tratamento e depois de 1, 3, 6, 12, 18 e 24 meses.
Entre os instrumentos utilizados estavam o MSQOL-54, específico para qualidade de vida em esclerose múltipla; o EQ-5D-5L, para avaliação geral do estado de saúde; o GAD-7, para sintomas de ansiedade; uma escala de qualidade do sono; e uma medida de impressão global de mudança do paciente.
Além dos desfechos clínicos relatados pelos pacientes, os pesquisadores registraram os produtos utilizados, as vias de administração, as doses de THC e CBD e os eventos adversos observados durante o acompanhamento.
Quais produtos à base de canabinoides foram utilizados?
Um aspecto interessante do estudo é a variedade de produtos utilizados pelos participantes. Ao final de 24 meses, a combinação de flor seca e óleo era a preparação mais prescrita, utilizada por 44,33% dos participantes. O uso de flor seca isoladamente aumentou ao longo do acompanhamento, enquanto a utilização exclusiva de óleo diminuiu.
As doses também variaram durante o acompanhamento. A dose mediana diária de CBD passou de 20 mg no início para 31 mg aos 24 meses. Para o THC, a mediana passou de 19,6 mg para 148,5 mg por dia no mesmo período.
Esses dados mostram uma característica importante da prática clínica observada pelo registro: não existe uma única formulação ou dose utilizada por todos os pacientes.
Isso também precisa ser considerado ao interpretar os resultados. Como os participantes receberam diferentes produtos, combinações, doses e vias de administração, não é possível atribuir as mudanças observadas a uma única molécula ou formulação.
O que aconteceu com a qualidade de vida dos pacientes?
Os pesquisadores observaram melhorias em diversos domínios do MSQOL-54 durante o acompanhamento.
Entre os resultados, houve melhora nos escores relacionados à dor, energia, função física, limitações físicas e saúde mental. O índice geral do EQ-5D-5L também apresentou melhora em diferentes momentos do acompanhamento.
A dor merece destaque. O domínio correspondente do MSQOL-54 apresentou melhora em todos os momentos avaliados, inclusive aos 24 meses. No EQ-5D-5L, o domínio relacionado a dor e desconforto também mostrou melhora durante todo o período de acompanhamento.
Os resultados, portanto, apontam para uma associação entre o uso dos produtos à base de canabinoides e melhorias relatadas pelos pacientes em diferentes aspectos da qualidade de vida.
Mas existe uma diferença fundamental entre observar uma melhora durante o tratamento e demonstrar que o tratamento causou essa melhora. Como o estudo não teve grupo controle ou placebo, seus resultados não permitem estabelecer essa relação causal.
E quanto ao sono e à ansiedade?
O sono também apresentou resultados favoráveis.
A pontuação média na escala utilizada para avaliar a qualidade do sono melhorou em todos os períodos de acompanhamento, inclusive aos 24 meses. Ao final do estudo, 47,29% dos participantes atingiram o critério definido pelos pesquisadores para uma diferença clinicamente relevante nessa medida.
Para a ansiedade, os resultados foram menos consistentes. As pontuações no GAD-7 melhoraram em 1, 3, 6 e 18 meses, mas não apresentaram diferença estatisticamente significativa em 12 e 24 meses. Aos 24 meses, 37,44% dos participantes atingiram o critério de mudança clinicamente relevante definido para essa escala.
Essa diferença é importante. Ela mostra que os resultados não foram uniformes para todos os desfechos e reforça a necessidade de analisar cada medida separadamente, em vez de resumir o estudo simplesmente como “melhora dos sintomas”.
O que o estudo encontrou sobre segurança?
Durante o acompanhamento, 26 pacientes, ou 12,81% da amostra, relataram eventos adversos, totalizando 278 registros. A maioria foi classificada como leve ou moderada.
Os eventos mais relatados foram fadiga, espasticidade, fraqueza muscular generalizada e sonolência. Também foram registrados eventos como alterações de concentração, letargia, ataxia, visão turva, constipação, tontura e boca seca.
Há, porém, uma ressalva importante. Fadiga, espasticidade e fraqueza muscular também são manifestações da própria esclerose múltipla. Como o estudo não avaliou se cada evento estava relacionado diretamente ao tratamento, não é possível determinar que todos os eventos adversos registrados tenham sido causados pelos produtos à base de canabinoides.
Os autores também observaram uma associação entre doses mais altas de CBD e maior probabilidade de registro de eventos adversos. Essa análise, contudo, deve ser interpretada como uma associação observacional, e não como demonstração de uma relação causal entre dose e evento adverso.
O que esses resultados permitem concluir?
O estudo encontrou uma associação entre o uso de produtos à base de canabinoides e melhorias em diferentes medidas relatadas por pacientes com esclerose múltipla, incluindo aspectos relacionados à dor, sono e qualidade de vida. Os produtos também foram considerados, de modo geral, bem tolerados durante o período de acompanhamento.
Entretanto, esses resultados não comprovam que os canabinoides foram responsáveis pelas melhorias observadas. Essa é a principal questão metodológica do trabalho. O estudo é observacional e não possui grupo placebo. Além disso, os pacientes receberam diferentes produtos e doses, e mais de 80% já tinham experiência anterior com a terapêutica. O estudo também não registrou o tipo de esclerose múltipla dos participantes nem acompanhou a progressão da doença ao longo do período.
Outro ponto relevante é que os principais desfechos foram baseados em questionários respondidos pelos próprios pacientes. Embora os instrumentos utilizados sejam importantes para avaliar qualidade de vida e sintomas, medidas autorreferidas podem sofrer influência de fatores como expectativa e efeito placebo. Os próprios autores destacam essa possibilidade, especialmente na avaliação da dor.
Por isso, os pesquisadores defendem a realização de ensaios clínicos randomizados de longo prazo, com populações mais representativas, para determinar com maior segurança a eficácia dos diferentes produtos, formulações e doses.
O que esse estudo acrescenta à pesquisa sobre canabinoides?
O principal valor do trabalho está em oferecer dados de vida real sobre pacientes acompanhados durante até dois anos. Esse tipo de informação complementa os resultados de ensaios clínicos, que normalmente avaliam intervenções mais específicas e sob condições mais controladas.
O estudo também chama atenção para a diversidade da prática clínica. As diferenças podem ser relevantes porque a via de administração influencia a farmacocinética dos canabinoides. Preparações inaladas tendem a apresentar início de ação mais rápido, enquanto formulações sublinguais podem produzir efeitos mais prolongados. Os autores destacam que futuras pesquisas devem avaliar diferentes formulações, doses e proporções de canabinoides de acordo com as características dos sintomas.
Mais do que demonstrar uma resposta universal, portanto, o estudo reforça a importância de investigar quais pacientes, produtos, doses e vias de administração podem estar associados a melhores resultados.
Conclusão
Os resultados deste estudo são relevantes porque acrescentam dados de prática clínica real à literatura sobre canabinoides na esclerose múltipla. Ao mesmo tempo, o desenho observacional impede estabelecer uma relação causal entre o tratamento e as melhorias observadas.
Essa distinção é fundamental para interpretar o estudo. Os resultados sugerem uma associação, mas não substituem a evidência produzida por ensaios clínicos randomizados. Como os próprios autores destacam, pesquisas futuras precisam avaliar diferentes produtos, doses e populações em estudos controlados e de longo prazo.
Para a prática clínica, o trabalho reforça uma mensagem importante: a análise dos canabinoides não deve se limitar à pergunta sobre se “funciona” ou “não funciona”. É necessário considerar qual produto, qual formulação, qual dose, qual via de administração e para qual paciente.
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