El Niño: como a gangorra térmica afeta nosso corpo
Um dia faz calor. No outro, a temperatura cai. Em poucas horas, o tempo pode mudar novamente. Essa variação tem chamado a atenção em diferentes regiões do Brasil. O cenário acontece enquanto o El Niño ganha força e pode influenciar o clima do país nos próximos meses.
Segundo o Instituto Nacional de Meteorologia (INMET), há mais de 90% de probabilidade de o fenômeno atingir a categoria “muito forte” no trimestre de setembro a novembro de 2026.
Mas é importante fazer uma distinção: El Niño não significa simplesmente calor. O fenômeno altera padrões de temperatura e chuva em diferentes regiões. Já as mudanças rápidas que sentimos no dia a dia dependem também de outros sistemas atmosféricos.
É nesse contexto que aparece uma expressão cada vez mais usada nas notícias: gangorra térmica. Mas o que acontece com o corpo quando a temperatura sobe e desce em pouco tempo?
O que é a gangorra térmica?
“Gangorra térmica” é uma expressão usada para descrever períodos de forte oscilação da temperatura.
O termo não é uma classificação técnica da meteorologia. Ele serve para representar uma situação bastante conhecida: o termômetro sobe e desce de forma significativa em um intervalo curto.
Isso pode acontecer, por exemplo, quando uma frente fria provoca uma queda brusca de temperatura depois de um período de calor. Depois, a temperatura pode voltar a subir.
O mês de setembro de 2026 tem sido marcado por episódios de tempo severo em parte do Centro-Sul do país. Segundo o INMET, diferentes áreas da região registraram chuvas intensas, vendavais, granizo e outras ocorrências meteorológicas.
Portanto, a sensação de instabilidade do tempo não depende apenas do El Niño. O fenômeno influencia o clima em uma escala maior. As condições de cada dia também são determinadas pela atuação de diferentes sistemas atmosféricos.
Como o corpo reage à mudança de temperatura?
O organismo precisa manter sua temperatura interna dentro de uma faixa relativamente estável. Esse equilíbrio faz parte da homeostase.
Para isso, o corpo conta com mecanismos de termorregulação. Eles ajustam a produção, a conservação e a perda de calor de acordo com as condições do ambiente.
No frio, por exemplo, ocorre vasoconstrição periférica. Os vasos sanguíneos próximos à superfície da pele se contraem. Com isso, o organismo reduz a perda de calor para o ambiente.
No calor, ocorre o movimento contrário. Os vasos sanguíneos da pele se dilatam, aumentando a circulação nessa região e facilitando a perda de calor. A transpiração também participa desse processo.
Essas respostas fazem parte do funcionamento normal do organismo.
Por isso, uma mudança na temperatura externa exige adaptações contínuas. Em algumas pessoas, porém, as condições climáticas podem agravar sintomas ou problemas de saúde já existentes.
As vias respiratórias também podem sentir
As vias respiratórias também podem responder às mudanças nas condições ambientais.
O Ministério da Saúde informa que doenças como asma e doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC) podem sofrer agravamento durante períodos de frio. Mudanças nas condições climáticas também podem aumentar sintomas em pessoas que já apresentam doenças respiratórias.
A asma é um exemplo. Fatores ambientais e mudanças climáticas podem contribuir para a piora dos sintomas.
Por isso, algumas pessoas podem perceber mais tosse, chiado ou falta de ar durante determinados períodos de mudança nas condições do tempo.
É importante, porém, não confundir sintomas respiratórios com infecção.
Mudança de temperatura causa gripe?
Não. Gripe e resfriados são causados por vírus. A temperatura, por si só, não é o agente infeccioso.
No entanto, as condições climáticas podem influenciar a circulação de vírus respiratórios e o agravamento de sintomas.
O próprio Ministério da Saúde aponta que as baixas temperaturas favorecem a circulação de vírus respiratórios, como influenza, vírus sincicial respiratório e coronavírus.
Por isso, é importante separar duas coisas: uma mudança de temperatura não causa uma infecção viral, mas pode fazer parte de um cenário que aumenta determinados riscos respiratórios.
E o sistema cardiovascular?
A temperatura também provoca respostas no sistema cardiovascular. Durante a exposição ao frio, a vasoconstrição periférica ajuda a conservar calor. Essa resposta aumenta a resistência dos vasos sanguíneos e pode elevar a pressão arterial.
Por isso, pessoas com doenças cardiovasculares podem exigir atenção especial durante períodos de frio ou de mudanças importantes de temperatura.
Novamente, isso não significa que toda oscilação térmica represente um risco à saúde. A resposta depende da intensidade e da duração da exposição, além das condições individuais.
Quem precisa de mais atenção?
Nem todas as pessoas respondem da mesma maneira às condições climáticas.
Crianças, idosos e pessoas com doenças crônicas estão entre os grupos que podem exigir maior atenção durante períodos de temperaturas extremas.
Quem tem doenças respiratórias também pode apresentar piora dos sintomas durante períodos frios.
O mesmo vale para pessoas com doenças cardiovasculares, especialmente durante períodos de frio. Já que a exposição ao frio provoca respostas do organismo que podem aumentar a frequência cardíaca e a pressão arterial. Em pessoas com doenças cardiovasculares, o risco de complicações pode ser maior.
O objetivo não é tratar toda mudança de temperatura como uma ameaça. A questão é reconhecer que algumas pessoas têm maior vulnerabilidade às condições ambientais.
O que esperar dos próximos meses?
O El Niño deve continuar influenciando o cenário climático brasileiro, já que altera os padrões de circulação atmosférica e pode produzir efeitos diferentes de acordo com a região do Brasil.
Por isso, seus impactos não podem ser resumidos a uma única condição, como “mais calor” ou “mais chuva”.
O Ministério da Saúde considera o período entre outubro de 2026 e março de 2027 uma janela de atenção para os possíveis impactos do fenômeno. Mas, esses efeitos não serão iguais em todo o país.
No Sudeste, por exemplo, estão previstos períodos de calor e possibilidade de temporais. No Sul, o cenário inclui maior volume de chuva e risco de inundações. Já outras regiões podem enfrentar condições de seca, estiagem e queimadas.
Por isso, não existe uma única “cara” do El Niño no Brasil.
A sensação de instabilidade do tempo resulta da combinação entre o fenômeno climático e os sistemas atmosféricos que atuam no curto prazo. Enquanto o fenômeno influencia os padrões climáticos em escala ampla, frentes frias, massas de ar e outros sistemas continuam determinando as condições que sentimos no cotidiano.
E é justamente essa combinação que pode deixar o tempo com cara de gangorra: calor, frio, chuva e novas mudanças em poucos dias. Para o organismo, isso significa uma adaptação constante às condições do ambiente.
Por que entender a termorregulação importa?
A variação de temperatura mostra como o organismo trabalha para preservar seu equilíbrio interno.
Vasoconstrição, vasodilatação e transpiração são alguns dos mecanismos envolvidos nessa adaptação. Eles atuam de maneira integrada para manter a temperatura corporal dentro de limites adequados.
Quando compreendemos esses mecanismos, fica mais fácil entender por que uma mesma mudança de temperatura pode ser percebida de maneiras diferentes por pessoas diferentes.
A chamada “gangorra térmica” pode ser uma expressão popular. Mas, por trás dela, existe um processo fisiológico real: o corpo ajustando continuamente suas funções para manter a homeostase.
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