Estudo investiga o potencial do canabinol (CBN) no tratamento do glaucoma
O canabinol (CBN), um fitocanabinoide presente na Cannabis sativa, demonstrou potencial para atuar em diferentes mecanismos envolvidos no glaucoma em um estudo pré-clínico publicado na revista BBA – Molecular Basis of Disease. Os pesquisadores investigaram se o composto seria capaz de proteger células da retina, modular alterações na malha trabecular e reduzir a pressão intraocular, principal fator de risco modificável para a progressão da doença.
O glaucoma é uma das principais causas de cegueira irreversível no mundo. A doença é caracterizada pela degeneração progressiva das células ganglionares da retina e do nervo óptico, levando à perda gradual da visão.Atualmente, o tratamento tem como principal objetivo reduzir a pressão intraocular. Embora essa estratégia seja eficaz para retardar a progressão da doença, muitos pacientes continuam apresentando perda visual mesmo quando a pressão ocular permanece controlada. Por isso, pesquisadores buscam abordagens capazes de atuar também sobre mecanismos relacionados à neurodegeneração e ao remodelamento dos tecidos oculares.
É importante destacar que os resultados do estudo Cannabinol modulates neuroprotection and intraocular pressure: A potential multi-target therapeutic intervention for glaucoma foram obtidos em modelos celulares e animais. Portanto, representam evidências pré-clínicas e não permitem concluir que os mesmos efeitos ocorram em seres humanos.

O que é o canabinol (CBN)?
O canabinol (CBN) é um fitocanabinoide encontrado na planta Cannabis sativa. Ele vem sendo estudado por diferentes propriedades farmacológicas.Nos últimos anos, pesquisas sugeriram que canabinoides podem exercer efeitos como:
- redução da pressão intraocular;
- ação antioxidante;
- modulação da inflamação;
- neuroproteção.
No entanto, ainda existiam poucas evidências relacionando especificamente o CBN aos mecanismos moleculares envolvidos na progressão do glaucoma. Foi justamente essa lacuna que motivou o estudo.
Como o estudo foi realizado?
Os pesquisadores utilizaram diferentes modelos experimentais para avaliar o potencial terapêutico do CBN. A investigação incluiu:
- células precursoras de células ganglionares da retina de camundongos submetidas a pressão elevada;
- células humanas da malha trabecular expostas ao fator de crescimento transformador beta 2 (TGF-β2), proteína associada ao remodelamento tecidual observado no glaucoma;
- modelo experimental de glaucoma em ratos induzido por fotocoagulação das veias episclerais.
Essa abordagem permitiu analisar diferentes aspectos da doença.
Entre eles:
- sobrevivência das células ganglionares da retina;
- apoptose;
- remodelamento da matriz extracelular;
- alterações na pressão intraocular;
Por que a pressão intraocular não explica toda a progressão do glaucoma?
A elevação da pressão intraocular é considerada o principal fator de risco modificável para o glaucoma. Entretanto, ela não explica completamente a evolução da doença.Segundo os autores, diversos pacientes continuam apresentando perda do campo visual mesmo após alcançar níveis adequados de pressão intraocular com o tratamento convencional.
Além disso, o glaucoma envolve outros processos biológicos, como:
- degeneração das células ganglionares da retina;
- dano ao nervo óptico;
- remodelamento da matriz extracelular da malha trabecular;
- alterações inflamatórias;
- estresse oxidativo.
Por esse motivo, cresce o interesse por terapias capazes de atuar simultaneamente em mais de um mecanismo fisiopatológico. O CBN foi investigado justamente sob essa perspectiva.
O que o estudo encontrou sobre neuroproteção?
Um dos principais objetivos foi verificar se o CBN conseguiria proteger células da retina submetidas a condições que simulam o aumento da pressão intraocular. Os resultados mostraram que a pressão elevada reduziu significativamente a viabilidade celular.
Quando tratadas com CBN, entretanto, as células apresentaram maior sobrevivência. O efeito ocorreu de forma dependente da dose. Nas concentrações entre 1,5 e 5 μM, o CBN reduziu a toxicidade induzida pela pressão elevada e diminuiu a apoptose das células precursoras das células ganglionares da retina.
Outro achado importante foi a comparação com outros fitocanabinoides avaliados no estudo. Enquanto o CBN apresentou efeito neuroprotetor, compostos como CBD, CBDA, CBGA, CBND e Δ9-THC não demonstraram proteção significativa nas mesmas condições experimentais. Em concentrações mais elevadas, o THC apresentou aumento da morte celular.
Os autores também observaram que concentrações muito altas de CBN perderam esse efeito protetor, indicando uma janela terapêutica limitada nos experimentos realizados.
Como o CBN atuou sobre a malha trabecular?
Além da neuroproteção, o estudo avaliou os efeitos do CBN sobre a malha trabecular, estrutura responsável pela drenagem do humor aquoso. No glaucoma primário de ângulo aberto, o remodelamento desse tecido aumenta a resistência ao escoamento do humor aquoso e favorece a elevação da pressão intraocular.
Para reproduzir esse processo, células humanas da malha trabecular foram expostas ao TGF-β2, proteína associada ao remodelamento tecidual observado na doença. Em seguida, os pesquisadores analisaram a ação do CBN sobre proteínas envolvidas nesse processo.
Redução de proteínas relacionadas ao remodelamento
O CBN reduziu a expressão de importantes proteínas da matriz extracelular, incluindo fibronectina (FN), colágeno tipo I (COL1A) e α-actina de músculo liso (α-SMA).
A exposição ao TGF-β2 aumentou cerca de três vezes os níveis de fibronectina. Esse efeito foi significativamente reduzido com CBN na concentração de 5 μM. O composto também diminuiu os níveis de COL1A de forma dependente da dose e reduziu a expressão de α-SMA.
Segundo os autores, esses achados sugerem que o CBN pode atenuar o remodelamento da matriz extracelular associado ao glaucoma.
Modulação da via ERK1/2
O estudo também mostrou que o TGF-β2 aumentou aproximadamente duas vezes a fosforilação da ERK1/2, via de sinalização relacionada à fibrose e ao remodelamento da malha trabecular.
Após o tratamento com CBN, essa ativação foi significativamente reduzida, principalmente nas concentrações entre 0,5 e 1,5 μM. Para os autores, esse resultado reforça o potencial do composto para modular mecanismos celulares envolvidos na progressão do glaucoma.
O CBN reduziu a pressão intraocular?
Sim, mas o efeito dependeu da dose utilizada.
Em um modelo experimental de glaucoma em ratos, os pesquisadores avaliaram duas concentrações de CBN administradas por via intravítrea: 5 μM e 50 μM.
Apenas a dose de 50 μM promoveu redução significativa da pressão intraocular, observada nos dias 7 e 17 após a indução do glaucoma. Já a dose de 5 μM não apresentou diferença significativa em relação ao grupo controle.
A brimonidina, utilizada como medicamento de referência, também não reduziu significativamente a pressão intraocular nesse modelo experimental. Segundo os autores, isso pode estar relacionado ao dano provocado na malha trabecular, que limita a resposta ao fármaco.
Avaliação da função das células ganglionares da retina
Os pesquisadores também avaliaram a função das células ganglionares da retina por meio da eletrorretinografia de padrão (pERG). Após a indução do glaucoma, todos os grupos apresentaram redução das amplitudes do exame.No entanto, a resposta variou conforme a dose de CBN. Na concentração de 5 μM, a redução das amplitudes não foi estatisticamente significativa em relação aos valores basais nos dias 14 e 21, indicando preservação da função das células ganglionares da retina. Já a dose de 50 μM promoveu redução significativa nesses mesmos períodos.
Segundo os autores, esse resultado está de acordo com os experimentos in vitro, nos quais concentrações mais elevadas de CBN perderam o efeito neuroprotetor observado em doses intermediárias. Assim, os dados sugerem que a neuroproteção e a redução da pressão intraocular podem ocorrer em faixas de dose diferentes.
O que os resultados indicam?
O estudo sugere que o CBN pode atuar em diferentes mecanismos envolvidos no glaucoma. Nos modelos experimentais, o composto demonstrou potencial para proteger as células ganglionares da retina, modular o remodelamento da malha trabecular e reduzir a pressão intraocular.
Segundo os autores, essa ação em múltiplos alvos pode representar uma estratégia promissora para o desenvolvimento de novas terapias. No entanto, os resultados ainda se restringem à pesquisa pré-clínica.
Limitações do estudo
Os resultados foram obtidos exclusivamente em modelos celulares e animais e, portanto, não podem ser extrapolados para pacientes.
Além disso, os efeitos do CBN variaram conforme a dose. Enquanto concentrações intermediárias apresentaram efeito neuroprotetor, doses mais elevadas perderam esse benefício, sugerindo a existência de uma possível janela terapêutica.
O estudo também utilizou administração intravítrea, diferente das vias empregadas na prática clínica. Outro ponto é que os mecanismos envolvidos ainda não foram completamente esclarecidos, sendo necessários novos estudos para definir o papel dos receptores canabinoides e de outras vias de sinalização.
Conclusão
Este estudo amplia as evidências sobre o potencial terapêutico do CBN no glaucoma. Em modelos experimentais, o composto apresentou efeitos neuroprotetores, reduziu proteínas relacionadas ao remodelamento da malha trabecular e, em uma das doses avaliadas, diminuiu a pressão intraocular.
Apesar dos resultados promissores, os autores ressaltam que estudos clínicos serão necessários para confirmar a eficácia, a segurança, a dose ideal e os mecanismos de ação do CBN em seres humanos.
A pesquisa sobre canabinoides e glaucoma continua evoluindo. Acompanhar as evidências científicas é fundamental para compreender o potencial terapêutico desses compostos e suas possíveis aplicações na prática clínica. Continue acompanhando o blog da EndoPure Academy para acessar análises de estudos, atualizações e conteúdos baseados em evidências sobre o sistema endocanabinoide e a medicina canabinoide.

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