Como o CBG afetou células de câncer de pâncreas em laboratório
O canabidiol (CBD) e o tetrahidrocanabinol (THC) são, sem dúvida, os canabinoides mais conhecidos da planta Cannabis sativa. Nos últimos anos, porém, outros compostos presentes na planta começaram a despertar crescente interesse da comunidade científica. Entre eles está o canabigerol, mais conhecido pela sigla CBG.
Embora esteja presente em concentrações relativamente baixas na maioria das variedades da planta, o CBG tem sido investigado em diferentes áreas da pesquisa biomédica devido às suas propriedades farmacológicas e à sua interação com múltiplas vias celulares.
Recentemente, pesquisadores avaliaram o potencial do CBG em um dos tipos mais agressivos de câncer: o adenocarcinoma ductal pancreático (PDAC), responsável pela maioria dos casos de câncer de pâncreas. Os resultados foram publicados no artigo científico Cannabigerol Induces Autophagic Cell Death by Inhibiting EGFR-RAS Pathways in Human Pancreatic Ductal Adenocarcinoma Cell Lines, em 2024, no periódico International Journal of Molecular Sciences.
O estudo analisou como o CBG afeta células tumorais pancreáticas cultivadas em laboratório e buscou compreender os mecanismos biológicos envolvidos nessa interação.

Por que o câncer de pâncreas preocupa tanto?
O adenocarcinoma ductal pancreático é considerado um dos tumores sólidos mais desafiadores da oncologia. Segundo os autores, apesar dos avanços observados nas últimas décadas, a sobrevida global em cinco anos permanece baixa, tendo aumentado de aproximadamente 3% para cerca de 9%.
Entre os fatores que contribuem para esse cenário estão o diagnóstico frequentemente tardio, a alta capacidade de disseminação tumoral e a resistência a diferentes estratégias terapêuticas.
Diante dessas limitações, pesquisadores continuam investigando novas moléculas e mecanismos que possam contribuir para futuras abordagens terapêuticas.
O que é o CBG?
O canabigerol é um fitocanabinoide naturalmente presente na planta Cannabis sativa. Ele é frequentemente chamado de “canabinoide precursor” porque participa da formação de outros compostos da planta, incluindo THC e CBD.
Embora ainda seja muito menos estudado que esses canabinoides mais conhecidos, pesquisas recentes vêm explorando seu potencial em áreas relacionadas à inflamação, neuroproteção, metabolismo e câncer.
Foi justamente nesse contexto que os autores decidiram investigar seus efeitos em células de câncer pancreático.
Como o estudo foi realizado?
Os pesquisadores utilizaram duas linhagens humanas de adenocarcinoma ductal pancreático amplamente empregadas em pesquisas oncológicas: PANC-1 e MIAPaCa-2.
As células foram expostas a diferentes concentrações de CBG e posteriormente analisadas por meio de testes destinados a avaliar:
- viabilidade celular;
- proliferação tumoral;
- morte celular;
- ativação de vias moleculares relacionadas ao crescimento do tumor;
- possíveis interações com quimioterápicos já utilizados na prática clínica.
É importante destacar que todos os experimentos foram realizados exclusivamente em células cultivadas em laboratório. O estudo não envolveu pacientes nem modelos animais.
O que os pesquisadores observaram?
Os resultados mostraram que o CBG reduziu a viabilidade das células tumorais de forma dependente da dose utilizada. Em outras palavras, quanto maior a concentração empregada, maior foi a redução observada no crescimento celular.
Os pesquisadores calcularam a chamada concentração inibitória média (IC50), parâmetro utilizado para estimar a quantidade necessária de uma substância para reduzir em 50% a atividade celular.
Os valores encontrados foram:
- 15,64 ± 0,83 µg/mL para as células PANC-1;
- 13,77 ± 0,72 µg/mL para as células MIAPaCa-2.
Segundo os autores, esses resultados indicam que o CBG exerceu atividade biológica relevante sobre ambas as linhagens tumorais analisadas.
O papel das vias EGFR e RAS
Um dos aspectos mais interessantes do estudo foi a investigação dos mecanismos celulares envolvidos. Os pesquisadores observaram que o tratamento com CBG reduziu a atividade de proteínas pertencentes às vias EGFR, RAS e PI3K/AKT/mTOR. Essas vias desempenham papel importante no crescimento, sobrevivência e proliferação de células tumorais.
Alterações em componentes dessas redes de sinalização são frequentemente observadas em diversos tipos de câncer, incluindo o adenocarcinoma ductal pancreático. Ao interferir nesses mecanismos, o CBG pareceu reduzir sinais celulares associados à progressão tumoral.
Autofagia e morte celular
Outro achado relevante foi a indução de autofagia.
A autofagia é um processo celular complexo que participa da reciclagem de componentes internos da célula. Dependendo do contexto biológico, esse mecanismo pode atuar tanto na sobrevivência quanto na morte celular.
No estudo, os pesquisadores identificaram aumento de marcadores relacionados à autofagia após a exposição ao CBG. Além disso, observaram sinais compatíveis com apoptose, um tipo de morte celular programada importante para eliminar células danificadas ou potencialmente perigosas.
Segundo os autores, esses mecanismos podem contribuir para explicar a redução da viabilidade tumoral observada nos experimentos.
O que aconteceu quando o CBG foi combinado com quimioterapia?
O estudo também avaliou a interação entre CBG e dois medicamentos amplamente utilizados no tratamento do câncer pancreático: gemcitabina e paclitaxel.
Em alguns testes, a combinação produziu efeitos considerados aditivos ou sinérgicos, indicando que a ação conjunta das substâncias foi superior ao efeito esperado para cada agente isoladamente.
Os pesquisadores relataram escores de sinergia Bliss de 10,87 para células PANC-1 e 14,05 para células MIAPaCa-2 quando o CBG foi combinado à gemcitabina.
Embora esses resultados sejam considerados promissores do ponto de vista experimental, eles ainda precisam ser investigados em modelos mais complexos antes que qualquer aplicação clínica possa ser considerada.
O que o estudo não permite afirmar?
Apesar dos resultados positivos observados em laboratório, é fundamental compreender as limitações da pesquisa.
Este foi um estudo pré-clínico realizado exclusivamente em células tumorais cultivadas in vitro. Isso significa que os resultados não demonstram que o CBG seja eficaz para tratar câncer de pâncreas em seres humanos.
Muitas substâncias apresentam atividade antitumoral em células isoladas e não conseguem reproduzir os mesmos resultados em animais ou pacientes.
Por esse motivo, os próprios autores destacam a necessidade de pesquisas adicionais para avaliar segurança, eficácia, dosagem e viabilidade clínica dessas observações.
Conclusão
O estudo mostrou que o canabigerol (CBG) foi capaz de reduzir a viabilidade de células de adenocarcinoma ductal pancreático em laboratório, além de modular vias celulares associadas ao crescimento tumoral e induzir mecanismos relacionados à autofagia e à morte celular programada.
Os resultados também sugerem possíveis interações favoráveis entre o CBG e quimioterápicos utilizados no tratamento do câncer pancreático.
No entanto, as evidências ainda permanecem restritas ao ambiente experimental. Isso significa que os achados ajudam a ampliar o conhecimento científico sobre o CBG e suas interações biológicas, mas ainda não permitem concluir que o composto seja um tratamento eficaz para o câncer de pâncreas em humanos.
O interesse científico pelo CBG reflete um movimento mais amplo da pesquisa com canabinoides: compreender como diferentes compostos da Cannabis sativa interagem com mecanismos biológicos complexos e quais aplicações realmente podem se traduzir em benefícios clínicos.
Embora os resultados observados neste estudo ainda estejam restritos ao ambiente laboratorial, eles ajudam a ampliar o conhecimento sobre o potencial terapêutico dos fitocanabinoides e reforçam a importância de acompanhar a evolução da evidência científica com senso crítico e rigor metodológico.
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