Canabinoides no autismo: resultados de um estudo controlado por placebo
Pela primeira vez, o Censo brasileiro investigou quantas pessoas declararam ter diagnóstico de Transtorno do Espectro Autista (TEA) no país. Os dados do Censo 2022, divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em 2025, apontaram 2,4 milhões de pessoas com diagnóstico declarado de autismo no Brasil, o equivalente a 1,2% da população. Entre crianças e adolescentes de até 19 anos, o número chega a aproximadamente 1,1 milhão.
Esse é um cenário que ajuda a dimensionar a importância de pesquisas que buscam novas possibilidades terapêuticas para pessoas dentro do espectro autista.
O artigo “NTI164, a novel medicinal cannabis extract, improves core symptoms of autism spectrum disorder: Results from a double-blind, randomised, controlled trial (The Harmony study)” foi publicado na revista científica Neurotherapeutics e avaliou um extrato de cannabis em crianças e adolescentes com TEA níveis II e III.
O resultado chamou atenção não apenas pelas melhoras observadas, mas também pelo desenho do estudo: um ensaio clínico randomizado, duplo-cego e controlado por placebo.
Como aconteceu o estudo Harmony Study?
O Harmony Study foi um ensaio clínico de fase II/III realizado na Austrália.
Foram incluídos 61 participantes com diagnóstico de TEA níveis II ou III. A idade média foi de aproximadamente 12 anos, com participantes entre 8 e 17 anos. Durante a primeira etapa, eles foram distribuídos aleatoriamente entre dois grupos: um recebeu o NTI164 e o outro recebeu placebo.
Essa fase durou oito semanas. Nem os participantes nem os profissionais responsáveis pelas avaliações sabiam quem estava utilizando o produto ativo durante esse período.
Dos 61 participantes inicialmente incluídos, 54 completaram a fase duplo-cega de oito semanas. Depois disso, os participantes que haviam recebido placebo puderam utilizar NTI164 por mais oito semanas em uma fase aberta.
O que é o NTI164?
Um ponto importante é que o estudo não avaliou CBD isolado. O NTI164 é um extrato padronizado de Cannabis sativa de espectro completo.
A formulação contém diferentes fitocanabinoides, entre eles ácido canabidiólico (CBDA), CBD, ácido canabigerólico (CBGA) e canabidivarina (CBDV). A concentração de THC é inferior a 0,3%.
Por isso, os resultados encontrados não devem ser automaticamente atribuídos apenas ao CBD ou extrapolados para qualquer produto à base de canabinoides.
O que os pesquisadores avaliaram?
O estudo não observou apenas um comportamento específico. Foram utilizadas diferentes ferramentas clínicas para analisar dimensões do funcionamento relacionadas ao TEA.
Entre elas estavam escalas que avaliavam:
- impressão clínica global;
- comunicação;
- habilidades da vida diária;
- socialização;
- responsividade social;
- interesses restritos e comportamentos repetitivos;
- ansiedade e humor;
- impacto sobre a rotina familiar;
- sono.
As avaliações foram realizadas tanto por profissionais quanto por pais e cuidadores. Essa combinação permite observar não apenas alterações percebidas durante uma consulta, mas também mudanças relacionadas ao cotidiano da criança e da família.
Houve melhora na avaliação clínica global
O principal desfecho do estudo foi a escala Clinical Global Impression – Severity (CGI-S), utilizada pelos profissionais para avaliar a gravidade clínica geral.
Depois de oito semanas, houve diferença estatisticamente significativa entre o grupo que recebeu NTI164 e o grupo placebo.
A diferença média ajustada foi de -1,65 ponto, favorecendo o NTI164. Os autores interpretaram o resultado como aproximadamente uma categoria de melhora na escala de sete pontos.
Outra avaliação, a CGI-I, também apontou maior melhora clínica no grupo tratado.
Enquanto o grupo placebo permaneceu, em média, próximo da categoria “sem mudança”, os participantes que receberam NTI164 ficaram entre as classificações de melhora mínima e melhora importante.
Comunicação, socialização e atividades diárias também foram avaliadas
Um dos resultados mais interessantes apareceu na Vineland-3, escala utilizada para avaliar comportamento adaptativo. Ela inclui três grandes áreas: comunicação, habilidades da vida diária e socialização.
Depois de oito semanas, o grupo que recebeu NTI164 apresentou melhora estatisticamente significativa nas três áreas e também no índice global de comportamento adaptativo em comparação com o placebo.
Esse ponto se destaca porque vai além de uma avaliação genérica de sintomas. O estudo investigou capacidades relacionadas ao funcionamento cotidiano.
E os aspectos sociais do autismo?
Os pesquisadores também utilizaram a Social Responsiveness Scale (SRS-2).
Essa ferramenta observa áreas como percepção social, cognição social, comunicação, motivação social e interesses restritos ou comportamentos repetitivos.
Os resultados foram diferentes entre os domínios.
Houve melhora estatisticamente significativa em cognição social e em interesses restritos e comportamentos repetitivos.
Em percepção social e comunicação social, os resultados seguiram uma direção favorável ao NTI164, mas não atingiram significância estatística.
Na motivação social, não houve diferença significativa entre os grupos.
Essa diferença é importante porque mostra que o tratamento não produziu o mesmo efeito em todas as dimensões avaliadas.
Ansiedade e sintomas emocionais apresentaram mudanças
O estudo também avaliou humor, ansiedade e outros aspectos comportamentais.
Na escala ADAMS, utilizada para investigar sintomas afetivos e comportamentais, foram observadas melhoras significativas em áreas como: humor deprimido, evitação social, ansiedade geral e comportamento compulsivo.
O resultado total da escala também favoreceu significativamente o grupo que utilizou NTI164.
Outra ferramenta específica para ansiedade em crianças autistas mostrou melhora significativa em incerteza e ansiedade de separação.
Já outras dimensões, como ansiedade de desempenho e ativação ansiosa, apresentaram tendência favorável, mas sem diferença estatisticamente significativa.
Os efeitos também chegaram à rotina das famílias
Um aspecto interessante do Harmony Study foi a inclusão da experiência familiar entre os desfechos.
Pais e cuidadores responderam ao Autism Family Experience Questionnaire, que avalia diferentes impactos do TEA sobre a vida da família.
Depois de oito semanas, o resultado global apresentou melhora significativa em comparação com o placebo. As diferenças foram especialmente claras nos domínios relacionados à vida familiar e ao desenvolvimento, compreensão e relações sociais da criança.
Isso sugere que algumas das mudanças percebidas durante o estudo não ficaram restritas às escalas clínicas e também foram percebidas no cotidiano familiar.
O estudo encontrou melhora no sono?
Esse é um resultado importante porque ajuda a delimitar o efeito observado. A avaliação global do sono não apresentou diferença significativa entre NTI164 e placebo durante as oito semanas.
Houve uma diferença específica em um subdomínio relacionado à sudorese durante o sono, mas os demais parâmetros permaneceram relativamente estáveis.
Portanto, as melhoras identificadas em outras áreas não podem ser simplesmente explicadas por uma melhora geral do sono.
O que aconteceu quando quem usava placebo passou a receber NTI164?
Depois da fase duplo-cega, os participantes inicialmente alocados para o placebo puderam receber NTI164. Esse grupo passou então a ser comparado consigo mesmo.
Após oito semanas utilizando o extrato, foram observadas melhoras em diferentes medidas clínicas, incluindo gravidade global, comportamento adaptativo, comunicação, atividades diárias, socialização e responsividade social.
Os pesquisadores também registraram melhora em medidas de ansiedade, comportamento e experiência familiar. Esses resultados reforçam o sinal observado na fase controlada.
Porém, essa segunda etapa foi aberta, sem placebo e sem cegamento. Por isso, seus resultados precisam ser interpretados como complementares aos dados da fase duplo-cega.
E quanto à segurança?
Durante a fase controlada de oito semanas, foram registrados 41 eventos adversos em 26 participantes. Todos foram classificados pelos pesquisadores como leves, transitórios e não graves.
Os eventos mais relatados foram náusea, dor de cabeça, dor abdominal e ansiedade. Eles apareceram de maneira semelhante nos dois grupos.
Nenhum evento adverso grave foi registrado durante o estudo, e não foram observadas alterações clínicas relevantes nos exames laboratoriais ou sinais vitais.
Dentro desse período e dessa população, os pesquisadores consideraram o perfil de tolerabilidade favorável.
Por que este estudo chama atenção?
Pesquisas anteriores já haviam sugerido possíveis benefícios de formulações contendo canabinoides em pessoas com TEA.
O Harmony Study acrescenta um dado importante porque utiliza um desenho randomizado, duplo-cego e controlado por placebo.
Além disso, os resultados apareceram em diferentes instrumentos e foram registrados tanto por profissionais quanto por cuidadores.
Isso fortalece a evidência de um possível efeito terapêutico. Mas não encerra a investigação.
Quais são as limitações?
Os próprios autores destacam pontos que precisam ser considerados.
O estudo foi realizado em um único centro, com uma amostra relativamente pequena e apenas oito semanas de tratamento durante a fase duplo-cega.
Também houve variação na dose máxima tolerada por cada participante, o que significa que nem todos ficaram expostos exatamente ao mesmo regime durante todo o período.
Outro ponto metodológico é que vários desfechos secundários foram avaliados e, segundo o artigo, não houve ajuste estatístico para multiplicidade nesses resultados. Isso reforça a importância de confirmação independente e em populações maiores.
Essas informações não anulam os resultados, mas fazem parte da avaliação crítica da evidência científica.
A pesquisa vai continuar
O próprio artigo informa que um ensaio multicêntrico de fase III, com uma população maior e período de tratamento mais longo, está em desenvolvimento. Esse próximo passo será importante para verificar se os resultados se mantêm em uma amostra maior e mais diversa.
O desenvolvimento clínico do NTI164 permanece ativo em 2026. A empresa responsável pelo programa também informa que o produto segue sendo investigado para condições neurológicas pediátricas e que a etapa clínica em autismo continua avançando.
O que o Harmony Study acrescenta às pesquisas sobre canabinoides e autismo?
Os resultados são relevantes porque mostram, em um estudo controlado por placebo, melhoras em diferentes dimensões avaliadas em crianças e adolescentes com TEA níveis II e III.
Foram observadas mudanças em gravidade clínica global, comportamento adaptativo, comunicação, habilidades da vida diária, socialização, alguns aspectos da responsividade social, ansiedade e experiência familiar.
Ao mesmo tempo, nem todos os desfechos melhoraram. O sono, por exemplo, permaneceu praticamente inalterado, e algumas dimensões sociais não alcançaram significância estatística.
O conjunto dos dados é promissor. Especialmente porque o estudo avança além de relatos observacionais e utiliza um desenho clínico mais rigoroso.
Mas ainda será necessário confirmar os resultados em estudos maiores, multicêntricos e com acompanhamento mais longo.
Em um país onde 2,4 milhões de pessoas já aparecem nas estatísticas oficiais com diagnóstico de TEA, ampliar a qualidade das evidências sobre novas possibilidades terapêuticas é uma questão cada vez mais relevante para pacientes, famílias e profissionais de saúde.
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