Câncer do colo do útero: pesquisa investiga canabinoides e novas terapias
O câncer do colo do útero continua sendo um importante problema de saúde pública, especialmente em países onde o acesso à prevenção, ao diagnóstico e ao tratamento é limitado. Embora avanços importantes tenham sido feitos no controle da doença, os casos mais avançados ou recorrentes ainda representam um desafio para a oncologia.
É nesse cenário que pesquisadores vêm investigando novas estratégias que possam complementar os tratamentos já utilizados. Entre elas está o estudo dos canabinoides, como o THC e o CBD, não necessariamente como substitutos das terapias convencionais, mas como possíveis componentes de abordagens combinadas.
Uma revisão publicada em 2025 analisou justamente essa possibilidade. Intitulado Advancing cervical cancer treatment: integrating cannabinoids, combination therapies and nanotechnology, o artigo foi publicado no Journal of Cancer Research and Clinical Oncology e discute como os canabinoides vêm sendo investigados em conjunto com quimioterapia, radioterapia e imunoterapia. A revisão também explora outra frente de pesquisa: o uso da nanotecnologia para melhorar a entrega dessas moléculas ao organismo e, potencialmente, aos tecidos tumorais.
Trata-se de uma revisão que reúne principalmente resultados pré-clínicos e propostas de desenvolvimento terapêutico. Os autores destacam que ainda são necessários estudos clínicos para estabelecer formulações, doses, segurança e eficácia.
Então, o que exatamente a ciência está investigando? E por que combinar canabinoides com outras terapias ou utilizar nanotecnologia poderia ser interessante?

Como o câncer do colo do útero é tratado atualmente?
O tratamento do câncer do colo do útero depende principalmente do estágio da doença, da extensão do tumor e das características de cada paciente. Entre as principais estratégias estão a cirurgia, a radioterapia e a quimioterapia, que podem ser utilizadas isoladamente ou em combinação.
Nos casos diagnosticados em estágios iniciais, a cirurgia pode ser uma das principais opções. O procedimento varia de acordo com a extensão do tumor e pode envolver a retirada do útero ou técnicas mais conservadoras, capazes de preservar a fertilidade em algumas pacientes. Entre elas estão procedimentos como a conização e a traquelectomia.
Quando a doença está mais avançada, a cirurgia pode não ser suficiente. A radioterapia utiliza radiação de alta energia para destruir células tumorais e pode ser realizada por diferentes técnicas, incluindo a radioterapia externa e a braquiterapia, que permite direcionar a radiação para a região do tumor.
A quimioterapia também ocupa um papel importante, especialmente nos casos avançados e quando é utilizada em conjunto com a radioterapia. Entre os medicamentos empregados está a cisplatina, que pode ser combinada a outros agentes dependendo da situação clínica.
Apesar dos avanços nessas abordagens, o tratamento pode enfrentar obstáculos como efeitos adversos, resistência às terapias e recorrência da doença. Esses desafios são particularmente relevantes quando o câncer é diagnosticado em estágios mais avançados.
É nesse contexto que surge o interesse por novas estratégias terapêuticas. Em vez de necessariamente substituir os tratamentos já utilizados, uma das possibilidades investigadas é combinar novas moléculas às terapias convencionais, buscando aumentar sua ação sobre as células tumorais ou superar alguns mecanismos de resistência.
Entre essas possibilidades estão os canabinoides.
Como os canabinoides estão sendo estudados contra o câncer do colo do útero?
A investigação sobre canabinoides no câncer do colo do útero parte de uma pergunta diferente daquela relacionada ao uso dessas substâncias para controle de sintomas: elas poderiam interferir diretamente em mecanismos envolvidos no crescimento e na sobrevivência das células tumorais?
A revisão reúne estudos que investigaram principalmente o THC e o CBD em modelos pré-clínicos de câncer cervical. Nesses experimentos, os canabinoides apresentaram efeitos sobre diferentes processos celulares, incluindo indução de apoptose, redução da proliferação e interferência em mecanismos relacionados à invasão tumoral.
Um dos mecanismos discutidos envolve a produção de espécies reativas de oxigênio (ROS) e alterações na função das mitocôndrias. Em determinados modelos experimentais, esses efeitos podem levar ao aumento do estresse oxidativo e à ativação de vias associadas à morte das células tumorais. A revisão também descreve alterações em proteínas relacionadas à apoptose, como as proteínas da família Bcl-2 e as caspases.
Outro mecanismo investigado envolve a capacidade dos canabinoides de interferir na invasão das células cancerosas. Os autores discutem estudos nos quais THC e CBD aumentaram a expressão de TIMP-1, uma proteína capaz de inibir enzimas envolvidas na degradação da matriz extracelular. Esse processo pode dificultar etapas relacionadas à invasão tumoral e à angiogênese, formação de novos vasos sanguíneos que podem contribuir para o crescimento do tumor.
A revisão também aborda a influência dos canabinoides sobre vias de sinalização celular envolvidas na sobrevivência e na progressão tumoral. Entre elas está a PI3K/AKT, uma via frequentemente estudada no câncer do colo do útero por sua participação em processos como crescimento, sobrevivência e migração celular.
Esses resultados ajudam a explicar o interesse científico pelos canabinoides, mas é importante observar onde esses resultados foram obtidos. A revisão é uma síntese de estudos pré-clínicos e de abordagens terapêuticas emergentes; portanto, os efeitos observados em células e modelos animais não permitem concluir que THC ou CBD tenham eficácia antitumoral comprovada em pacientes com câncer cervical.
É justamente essa limitação que leva à próxima questão investigada pela revisão: se os canabinoides apresentam atividade em modelos experimentais, será que eles poderiam ser utilizados em conjunto com os tratamentos que já fazem parte da oncologia?
Canabinoides e quimioterapia: a possibilidade de combinar estratégias
Uma das possibilidades mais discutidas na revisão é o uso de canabinoides em combinação com medicamentos já utilizados contra o câncer, em vez de considerá-los como substitutos das terapias convencionais.
A cisplatina é um exemplo importante. Esse quimioterápico é amplamente utilizado no tratamento do câncer do colo do útero, especialmente em combinação com radioterapia em determinados estágios da doença. A revisão reúne estudos que investigaram se os canabinoides poderiam aumentar a sensibilidade das células tumorais à ação da cisplatina.
Em modelos in vitro e in vivo, alguns estudos encontraram sinais de sinergia entre canabinoides e cisplatina. Uma das hipóteses é que os canabinoides possam interferir em mecanismos utilizados pelas células tumorais para sobreviver ao tratamento, incluindo vias relacionadas ao reparo do DNA e à atividade de proteínas que expulsam medicamentos para fora da célula.
Outro mecanismo investigado envolve o estresse oxidativo. Os canabinoides podem aumentar a produção de espécies reativas de oxigênio (ROS) nas células tumorais. Em determinadas condições experimentais, esse aumento pode contribuir para danos em lipídios, proteínas e DNA e favorecer processos de morte celular, como apoptose e autofagia.
A ideia, portanto, não seria simplesmente adicionar um canabinoide ao tratamento, mas explorar se sua ação sobre determinadas vias celulares poderia tornar as células tumorais mais vulneráveis à terapia convencional.
Há, porém, uma ressalva importante. A própria revisão destaca que as evidências especificamente sobre a combinação de canabinoides e cisplatina no câncer do colo do útero ainda são limitadas. Alguns dos estudos citados foram realizados em outros tipos de câncer, e seus resultados não podem ser automaticamente transferidos para o câncer cervical.
Além disso, no contexto clínico, os canabinoides são frequentemente estudados e utilizados para o manejo de efeitos adversos associados à quimioterapia, como náuseas e vômitos. A possibilidade de que também atuem como agentes antitumorais ou potencializem a ação de quimioterápicos é uma questão diferente e ainda precisa de investigação específica.
Essa distinção é fundamental: há uma hipótese terapêutica interessante, sustentada por resultados experimentais, mas ainda não há evidência clínica suficiente para afirmar que a combinação de canabinoides e quimioterapia melhora o tratamento do câncer do colo do útero.
E a quimioterapia não é a única abordagem que vem sendo investigada em conjunto com os canabinoides. A revisão também discute seu possível papel em combinação com radioterapia e imunoterapia, ampliando ainda mais as possibilidades e as perguntas que estão sendo estudadas.
E os canabinoides podem ser combinados à radioterapia?
A radioterapia é uma das principais estratégias utilizadas no tratamento do câncer do colo do útero, especialmente em estágios mais avançados. Como a radiação provoca danos que podem levar à morte das células tumorais, pesquisadores investigam se determinadas substâncias poderiam aumentar a sensibilidade do tumor ao tratamento sem ampliar os danos aos tecidos saudáveis.
É nesse contexto que os canabinoides também passaram a ser estudados. A revisão descreve pesquisas que investigaram tanto possíveis efeitos radiossensibilizadores, que tornam as células tumorais mais vulneráveis à radiação, quanto efeitos potencialmente radioprotetores sobre tecidos normais.
Uma das hipóteses envolve o estresse oxidativo. A radioterapia pode aumentar a produção de espécies reativas de oxigênio (ROS), contribuindo para o dano celular. Alguns estudos experimentais indicam que os canabinoides também podem alterar a produção dessas moléculas. A combinação dos dois efeitos poderia aumentar o estresse oxidativo dentro das células tumorais e favorecer sua morte.
Os pesquisadores também investigam alterações em vias relacionadas à sobrevivência celular, ao reparo do DNA, à função das mitocôndrias e à resposta ao estresse do retículo endoplasmático. Em modelos experimentais, essas alterações foram associadas a processos como parada do ciclo celular, autofagia e apoptose.
Mas há uma ressalva importante: as evidências citadas pela revisão sobre a combinação de canabinoides e radioterapia não são específicas, em sua totalidade, para o câncer do colo do útero. Parte dos resultados vem de modelos de outros tipos de câncer, como tumores de pulmão e pâncreas. Portanto, esses achados servem como evidência experimental para uma hipótese que ainda precisa ser investigada especificamente no câncer cervical.
Essa diferença entre uma hipótese biologicamente plausível e uma aplicação clínica comprovada é fundamental. Mesmo quando uma combinação apresenta resultados positivos em células ou modelos animais, ainda é necessário determinar se o efeito se mantém em seres humanos, qual seria a dose adequada e se a combinação é segura.
Por isso, a revisão aponta a necessidade de estudos capazes de identificar quais mecanismos tornam determinados tumores mais sensíveis aos canabinoides e à radiação. Uma das possibilidades discutidas é o uso de análises genômicas, proteômicas e metabolômicas para identificar biomarcadores que possam indicar quais tumores teriam maior probabilidade de responder à combinação.
Essa perspectiva aproxima a pesquisa com canabinoides de uma tendência mais ampla da oncologia: em vez de buscar uma única substância que funcione para todos os pacientes, compreender as características moleculares de cada tumor pode ajudar a desenvolver estratégias mais direcionadas.
E onde entra a nanotecnologia?
Mesmo quando uma molécula apresenta resultados promissores em laboratório, transformá-la em uma terapia exige resolver outro problema: como fazer com que ela chegue ao local certo, na quantidade adequada e pelo tempo necessário?
Essa é uma das questões que levam a revisão s a discutir o uso da nanotecnologia na administração de canabinoides. Sistemas de nanopartículas podem ser utilizados como veículos para transportar substâncias pouco solúveis ou instáveis, melhorar sua biodisponibilidade e permitir uma liberação mais controlada.
Entre as possibilidades discutidas estão lipossomas, nanopartículas lipídicas, nanopartículas poliméricas e micelas. Esses sistemas apresentam características diferentes, e a escolha dependeria do canabinoide utilizado, da forma de administração desejada e do objetivo terapêutico.
A revisão também discute a possibilidade de desenvolver sistemas capazes de transportar canabinoides e outros medicamentos simultaneamente, como a cisplatina. A ideia seria utilizar um único sistema de liberação para entregar diferentes agentes ao microambiente tumoral, buscando maior controle sobre a distribuição dos compostos.
Outra possibilidade seria adaptar os nanocarreadores para uma administração mais localizada, inclusive por vias intravaginais ou intratumorais. Em teoria, uma estratégia desse tipo poderia aumentar a concentração do medicamento na região de interesse e reduzir a exposição de outros tecidos. Mas essas são possibilidades de desenvolvimento discutidas na revisão, e não tratamentos já estabelecidos para pacientes com câncer do colo do útero.
É justamente essa combinação entre canabinoides, terapias convencionais e sistemas de liberação direcionada que torna a proposta discutida no artigo diferente de simplesmente testar CBD ou THC isoladamente.
O que ainda falta antes de chegar aos pacientes?
Apesar dos resultados experimentais descritos na revisão, ainda existem obstáculos importantes para transformar essas possibilidades em terapias clínicas. A própria revisão destaca a necessidade de estabelecer formulações padronizadas, doses adequadas, segurança e eficácia em estudos clínicos.
Além disso, os estudos especificamente voltados à combinação de canabinoides com cisplatina no câncer do colo do útero ainda são limitados. Grande parte das evidências discutidas vem de modelos in vitro, modelos animais ou pesquisas realizadas em outros tipos de câncer.
Isso significa que há uma hipótese científica interessante, mas ainda não uma nova terapia contra o câncer cervical. Para que essa possibilidade avance, será necessário confirmar se os efeitos observados em laboratório também aparecem em seres humanos e determinar quais formulações, doses, combinações e vias de administração seriam seguras e eficazes.
No fim, talvez essa seja a principal contribuição da revisão: mostrar que a pesquisa não está olhando apenas para uma nova molécula, mas para uma estratégia integrada, que combina diferentes ferramentas da oncologia, da farmacologia e da nanotecnologia.
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