Canabidiol e cicatrização: pesquisas avaliam feridas em tecidos moles
A cicatrização de uma ferida é um processo biológico complexo, que depende da atuação coordenada de diferentes células e moléculas. Quando um tecido mole é lesionado, o organismo inicia uma sequência de eventos que envolve inflamação, proliferação celular e remodelamento do tecido até que o processo de reparação avance.
É nesse contexto que o canabidiol (CBD) vem despertando interesse científico. Estudos experimentais têm investigado sua atuação sobre processos relacionados à inflamação, ao estresse oxidativo e à atividade de diferentes células envolvidas na reparação dos tecidos. Ao mesmo tempo, pesquisadores também estudam maneiras de desenvolver sistemas capazes de levar o CBD até o local de interesse de forma mais controlada.
Uma revisão publicada na Acta Pharmaceutica Sinica B reúne esse campo de pesquisa no artigo “Exploring the therapeutic potential of Cannabidiol in soft tissue wound healing: Delivery strategies and anti-inflammatory pathways”. O trabalho analisa resultados de estudos in vitro e in vivo, além de dados de ensaios clínicos concluídos e em andamento, com atenção especial aos mecanismos anti-inflamatórios e às estratégias de liberação do CBD.
Hoje, vamos entender como ocorre a cicatrização dos tecidos moles, o que as pesquisas investigam sobre o CBD nesse processo e por que as estratégias de liberação da molécula podem ser tão importantes quanto o próprio composto.

Como funciona a cicatrização dos tecidos moles
A cicatrização dos tecidos moles é um processo organizado em diferentes etapas, que começa logo após uma lesão. Segundo a revisão, esse processo pode ser dividido em três fases principais: inflamação, proliferação e remodelamento.
A primeira é a fase inflamatória. Nesse momento, o organismo atua na remoção de células danificadas e de possíveis microrganismos presentes na região lesionada. É também uma etapa de comunicação entre diferentes células e moléculas que coordenam a resposta ao dano.
Em seguida ocorre a fase proliferativa, caracterizada por processos como a reepitelização e a formação de tecido de granulação. Nessa etapa, diferentes tipos celulares participam da reconstrução da região afetada.
Por fim, a fase de remodelamento reorganiza o tecido formado durante as etapas anteriores. O objetivo é promover a reorganização da matriz extracelular e a progressão da reparação tecidual.
A revisão destaca que esse processo envolve uma variedade de células, incluindo células endoteliais, queratinócitos, fibroblastos e células do sistema imune. Essas células produzem mediadores como fatores de crescimento, citocinas, interleucinas, interferons e metaloproteinases de matriz (MMPs), que participam da comunicação celular, da resposta inflamatória, da migração celular e do remodelamento da matriz extracelular.
Esse equilíbrio pode ser afetado por diferentes condições biológicas. A revisão cita, entre os fatores capazes de interferir na cicatrização, diabetes, idade, obesidade e outras condições preexistentes. Por isso, os autores destacam o interesse em substâncias bioativas capazes de influenciar o comportamento das células envolvidas nesse processo.
É justamente nesse cenário que o CBD começa a aparecer na revisão: os autores investigam se seus efeitos sobre processos como inflamação e estresse oxidativo podem ter relevância para a cicatrização e, ao mesmo tempo, quais sistemas de liberação poderiam levar a molécula aos tecidos de maneira mais adequada.
O que os estudos investigam sobre o CBD na cicatrização
A revisão reúne estudos in vitro e in vivo que investigaram diferentes efeitos do canabidiol (CBD) relacionados à reparação dos tecidos. Os resultados descritos pelos autores envolvem principalmente processos como inflamação, estresse oxidativo e atividade de células importantes para a cicatrização.
Um dos focos é o estresse oxidativo, que pode interferir no funcionamento celular durante a reparação. Em modelos experimentais, células estromais mesenquimais expostas a lipopolissacarídeo (LPS) e posteriormente tratadas com CBD apresentaram redução do estresse oxidativo e recuperação de características relacionadas à diferenciação celular.
Em outro modelo, queratinócitos submetidos a estresse oxidativo provocado por peróxido de hidrogênio apresentaram menor peroxidação lipídica após a exposição ao CBD. O estudo também observou preservação da atividade de uma proteína relacionada à proteção celular.
A revisão também descreve resultados relacionados à atividade de enzimas envolvidas no equilíbrio oxidativo. Em determinados modelos, o CBD aumentou a atividade da superóxido dismutase (SOD) e reduziu a expressão de genes relacionados à NADPH oxidase (NOX), indicando uma possível modulação de processos associados à produção de espécies reativas.
Além do estresse oxidativo, os autores discutem a resposta inflamatória. Em fibroblastos e queratinócitos, por exemplo, o CBD foi associado à redução da transcrição mediada pelo NF-κB após estímulo com TNF-α. Em outro modelo experimental, nanoemulsões contendo CBD reduziram a expressão de mediadores inflamatórios como TNF-α e IL-6 em monócitos estimulados por LPS.
Esses resultados ajudam a explicar por que o CBD é investigado no contexto da cicatrização: a molécula parece influenciar alguns processos celulares envolvidos na resposta inflamatória e no estresse oxidativo. Mas os resultados descritos são predominantemente experimentais e não permitem concluir, por si só, que o CBD seja um tratamento estabelecido para feridas em tecidos moles. A própria revisão ressalta que os mecanismos ainda não estão completamente esclarecidos e que as evidências clínicas são insuficientes para orientar dose e tratamento.
Por que a forma de aplicação do CBD importa?
Um dos desafios discutidos na revisão está relacionado às próprias características físico-químicas do CBD. A molécula apresenta baixa solubilidade em água e limitações de estabilidade, fatores que podem dificultar o desenvolvimento de formulações capazes de disponibilizá-la de maneira adequada no local de interesse.
Por isso, os autores analisam diferentes estratégias de liberação, incluindo lipossomas, microemulsões, micropartículas e hidrogéis. A proposta desses sistemas é melhorar características como estabilidade, retenção e controle da liberação do CBD, especialmente quando se considera uma aplicação local.
Um dos exemplos apresentados na revisão compara um gel convencional de CBD com um gel contendo uma microemulsão de CBD, em um modelo ex vivo de pele de orelha de coelho. Após 24 horas, o gel convencional apresentou maior retenção de CBD na pele. Por outro lado, a formulação em microemulsão apresentou uma liberação mais lenta e controlada, além de absorção transdérmica mínima.
Esse resultado é relevante porque mostra que maior retenção inicial não significa necessariamente uma liberação mais controlada. Dependendo do objetivo da formulação, características diferentes podem ser desejáveis.
A revisão também descreve pesquisas com hidrogéis, materiais que podem funcionar como matrizes para a liberação gradual do CBD. Em modelos experimentais, diferentes combinações de polímeros foram estudadas para avaliar estabilidade, liberação da molécula, biocompatibilidade e possíveis efeitos sobre a reparação tecidual.
Essas estratégias ainda estão no campo da investigação. Os autores destacam que a escolha do sistema de liberação precisa considerar fatores como estabilidade do CBD, concentração, tempo de liberação e interação da formulação com o tecido.
Assim, a pesquisa sobre CBD e cicatrização não envolve apenas perguntar “o CBD funciona?”, mas também investigar como a molécula pode ser formulada e disponibilizada para que seus efeitos possam ser adequadamente estudados.
O que os hidrogéis com CBD mostraram
Entre as estratégias de liberação analisadas na revisão, os hidrogéis contendo CBD chamam atenção porque permitem estudar a liberação gradual da molécula e seus efeitos diretamente em modelos de lesão.
Um dos trabalhos descritos utilizou um hidrogel formado por CBD, alginato e zinco em um modelo de ferida em ratos. A formulação apresentou uma liberação mais intensa de CBD nas primeiras horas, seguida por uma liberação mais lenta ao longo do tempo.
No modelo animal, os autores da revisão relatam que, após sete dias, os animais tratados com o hidrogel apresentaram maior formação de tecido de granulação, regeneração da epiderme e menor infiltração de células inflamatórias em comparação com os grupos de controle avaliados.
Após 14 dias, também foram observados maior quantidade de vasos sanguíneos e algumas estruturas semelhantes a folículos pilosos na região tratada. Esses achados foram acompanhados por alterações em marcadores relacionados ao estresse oxidativo e à inflamação, incluindo redução de mediadores associados à produção de espécies reativas e de citocinas como IL-12, IL-6 e TNF-α.
Os resultados sugerem que, nesse modelo experimental específico, a combinação entre CBD e o sistema de hidrogel esteve associada a mudanças favoráveis em diferentes aspectos da reparação da ferida.
É importante, porém, manter o resultado dentro de seu contexto: trata-se de evidência pré-clínica obtida em animais. O estudo não demonstra que a mesma formulação seja eficaz ou segura para tratar feridas em seres humanos.
A revisão, inclusive, destaca que ainda são necessários estudos mais robustos para esclarecer a eficácia, a segurança, as doses e as melhores formas de administração do CBD antes que seu potencial para lesões e regeneração de tecidos moles possa ser estabelecido clinicamente.
O que os estudos clínicos mostraram
A revisão também analisa estudos clínicos envolvendo o canabidiol, mas os autores fazem uma ressalva importante: as pesquisas clínicas disponíveis ainda não oferecem evidências suficientes para estabelecer o uso do CBD na cicatrização de feridas em tecidos moles.
Os ensaios reunidos na revisão investigam principalmente o CBD em condições relacionadas a dor e outros problemas envolvendo tecidos moles, e não diretamente a processos de cicatrização de feridas. Além disso, a maioria dos estudos utiliza o CBD por via oral, enquanto estratégias de aplicação local ainda aparecem de forma mais limitada.
Outro ponto destacado pelos autores é a dificuldade de definir parâmetros de administração. A baixa biodisponibilidade oral e a absorção variável dificultam a comparação entre diferentes estudos e a determinação de doses adequadas. A revisão também observa que, até o período analisado, nenhum dos ensaios clínicos avaliados havia testado uma formulação de CBD encapsulada ou de liberação controlada especificamente para esse contexto.
Os estudos clínicos descritos apresentaram alguns efeitos adversos, principalmente boca seca e sonolência, enquanto outros eventos, como alterações de apetite, olhos secos, tontura, dor de cabeça e desconfortos digestivos, apareceram com menor frequência em determinados estudos.
Portanto, os dados clínicos reunidos pela revisão ajudam a mostrar que o CBD já vem sendo investigado em seres humanos, mas não permitem concluir que ele seja eficaz para acelerar a cicatrização de feridas em tecidos moles. Segundo os próprios autores, o potencial clínico do CBD para lesões e regeneração de tecidos moles ainda precisa ser demonstrado por estudos mais bem estruturados.
O que ainda falta descobrir?
A revisão mostra um cenário promissor, mas ainda em fase de investigação. Estudos experimentais sugerem que o CBD pode influenciar processos relacionados à inflamação, ao estresse oxidativo e à reparação tecidual, enquanto diferentes sistemas de liberação vêm sendo desenvolvidos para melhorar a estabilidade e o controle da molécula.
Porém, existe uma distância importante entre esses resultados e uma aplicação clínica estabelecida. As evidências em seres humanos reunidas pelos autores ainda são limitadas, e os estudos clínicos disponíveis não permitem definir uma estratégia de tratamento para feridas em tecidos moles.
Por isso, os autores apontam a necessidade de estudos clínicos mais robustos, capazes de esclarecer segurança, eficácia, dose, forma de administração e mecanismos de ação. Até que esses dados estejam disponíveis, o potencial do CBD para a cicatrização de tecidos moles permanece uma questão de pesquisa.
Em outras palavras, a ciência já encontrou sinais que justificam continuar investigando o tema, mas ainda não respostas suficientes para transformar esses resultados experimentais em uma recomendação clínica.
Quer entender melhor o que a ciência já investiga sobre o CBD e seus possíveis efeitos na dermatologia? Explore os conteúdos da EndoPure Academy e acompanhe pesquisas sobre canabinoides, farmacologia e saúde.

Respostas